Crônicas de Botequim

Os dois tês de Ivette

Os dois tês de Ivette

Rubem Penz

Há dois tês lado a lado, gêmeos e de mãos dadas ali no nome da jornalista Ivette Brandalise. Eles podem compor várias combinações – depende do viés contemplado em sua biografia. Se pegarmos a juventude, há o tabaco e o teatro. O primeiro, marca sua personalidade: nem todas as mulheres fumavam mais de seis décadas atrás, muito menos bem cedo (14 anos, segundo ela revelou numa entrevista). Para tanto, era preciso muita personalidade. E a paixão pelo teatro, nascida em tenra idade, desviou seu caminho universitário da Engenharia para as humanidades – Artes Dramáticas e Jornalismo.

Outra combinação interessante é de tabloide e TV. Mesmo que tenha começado a escrever (muitíssimo jovem!) no Diário de Notícias, foi na Folha da Manhã, uma publicação do Grupo Caldas Júnior com formato mais ágil, que a jornalista brilhou numa coluna diária. Foram dezoito anos de textos interrompidos apenas pela descontinuidade do veículo. Paralelamente, transmitia crônicas radiofônicas e entrava no seleto grupo de jornalistas a fazer TV. Desde o revolucionário Show de Notícias, na Gaúcha, passando pela TV Piratini, Difusora e Guaíba, até chegar na TVE em Primeira Pessoa, Ivette esbanjou empatia, compondo informação com profundidade.

Se olharmos para as palavras trânsito e texto, outros dois tês, chegaremos à Psicologia, seu terceiro curso superior, outra de suas múltiplas atividades. Tal formação permitia que Ivette transitasse com muita facilidade entre os dois universos nos quais habitamos: o das relações e o espaço íntimo dos sentimentos. Ver ou escutar suas entrevistas significa assistir um hábil desvelamento do entrevistado, tão sutil quanto malicioso. Digo isso com conhecimento de causa: fui uma de suas honrosas vítimas. E o texto? Ora, é com palavras que nos despimos de forma mais contundente, e ela sempre soube disso na prática da crônica.

Para quem ainda não pescou a relevância do tema, enquanto escrevo, véspera da publicação, Ivette Brandalise abre seus 80 anos de vida. De agora para o dia sete de janeiro próximo espero que o meio acadêmico, os veículos e as instâncias da cultura preparem homenagens condizentes com sua relevância. Primeira boa notícia: Jornal do Comércio prepara uma matéria especial para breve – e me pediu um depoimento.

Em tempo de afirmações propositivas, a verdade é que Ivette deveria ser um espelho sempre à mão para todas as meninas que almejam conquistar respeito e igualdade de oportunidades, um exemplo de trajetória de vida. Uma mulher inteligente, corajosa, afetiva, acessível e generosa. Por isso, é endereço de minha humilde homenagem. E, antes que eu me esqueça, há mais dois tês importantíssimos para compor o seu perfil: lado a lado, gêmeos e de mãos dadas sempre estiveram o talento e o trabalho. Por mim, e por todos os cronistas, parabéns a você!

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