Crônicas de Botequim

Façanhas que não servem

Façanhas que não servem

Rubem Penz

Diante da TV, assistia uma reportagem sobre a entrada mais efetiva da energia limpa na Europa. Em Londres, por exemplo, além de pesadas restrições ao trânsito para autos particulares movidos por combustível fóssil, os ônibus e táxis estão se tornando veículos elétricos. E isso – incrível! –, estimulado por subsídios governamentais na terra do liberalismo. Porém, interessante mesmo foi notar que os coletivos continuam vermelhos e de dois andares, e os táxis novíssimos e tecnológicos têm o charmoso visual retrô a nos recordar os meados do século 20. Aí bateu uma dor.

Lembrei-me de ter visto o primeiro táxi branco em Porto Alegre semana passada. À época da votação na Câmara de Vereadores sobre a continuação do vermelho ibérico para nossos carros de praça, fiz o que pude: defendi no jornal a permanência de uma das nossas raras tradições. Desejava a manutenção do cromático fator distintivo capaz de identificar nossa Capital em uma mísera foto de paisagem, a qualquer tempo, tal qual Nova Iorque ou Londres. Que nada. Bastaram motivações particulares de uma parcela dos permissionários para jogarmos no lixo uma valiosa memória. E, de quebra, promoveram a fragilização de um serviço já bastante enfraquecido com a chegada dos aplicativos.

Lembrei-me, igualmente, de quão sofrível é nosso gerenciamento municipal. Ainda esperamos por uma decisão nascida para ser implementada até 2016: ônibus verdes ao leste, azuis ao norte, vermelhos ao sul e, para a Carris, o tom dos saudosos bondes (aliás, os bondes merecem uma crônica só para eles). Uma mudança decidida para embelezar a cidade e melhorar a compreensão de quem chega. Não há seriedade, comprometimento, afinco. Uma cidade bela e organizada atua em nossa autoestima, reforça as noções de pertencimento. Encanta. Ao elegermos um administrador, a democracia será um tanto faz se ele não for capaz de cumprir as funções impostas ao cargo.

E, ainda no âmbito da memória e do trânsito, lá está a escultura do Laçador. Quando deslocado para a atual coxilha por causa de urgentes obras viárias (risos), considerei a remoção covarde – preferia outra solução capaz de deixar a estátua mais destacada, central, protagonista. Ainda assim, acertada ao permanecer cumprindo a nobre e precípua missão de receber os visitantes em nossa mais frequente porta da cidade – o taura no aeroporto! Neste instante, a clássica imagem do gaúcho corre riscos de banimento. Nasci no São Geraldo e lá vivi até os 10. Por isso, convoco meu povo da Zona Norte: segurem o Laçador com todas as forças. Ele é, junto com a ponte do Guaíba, nossa imagem referencial na região.

A julgar pelo explanado, vivemos a provocar auto-bullying em razão de nosso hino. Quais façanhas mesmo serviriam de exemplo? As de rasgar a tradição por inépcia ou covardia? As de desprezar ícones por interesses mesquinhos? As de ser incompetente ao gerenciar o mobiliário urbano? Toda a terra deve ver pouca serventia em risíveis façanhas. Tá bom: não somos Londres ou Nova Iorque, comparações fora de medida. Mas, dá para continuar a ser ao menos Porto Alegre, ou peço muito?

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