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Viver ou morrer em vinte passos

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Viver ou morrer em vinte passos

Rubem Penz

Eduardo Gastaud, entre múltiplas lições, ensinou-me o enorme valor de um ensaio. Pode ser unzinho só, ainda que o ideal seja mais de um. Meu amigo consultor de segurança garante que, no improviso, temos a probabilidade concorrendo contra nosso êxito. Então, desde que o conheci, sigo um singelo conselho: a primeira tarefa ao me hospedar em um hotel é percorrer o corredor entre a porta do quarto e a escada de emergência contando passos ou portas, se está à esquerda ou à direita, se a maçaneta abre fácil e se a escada parece em boas condições. A explicação é simples: o incêndio que nos mata acontece durante a madrugada, com chances de estar sem luz e com fumaça. Então, cada segundo será determinante no destino de vida ou morte, ocasião em que saber para onde ir é algo valioso. E muito. Tudo, talvez.

Agora, a pergunta: você alguma vez já fez isso?

A resposta negativa não deve ser encarada com martírio. Em verdade, este país trata muito mal os assuntos de segurança, a começar pela ausência de educação sobre o tema. Nem em casa, nem na escola, nem em lugar algum – salvo raras e boas exceções – se faz algum tipo de ensaio ou curso. Em regra, durante o sinistro, estamos fadados ao improviso. Em todos meus anos de estudos, ou nos muitos períodos em que trabalhei em prédios de escritórios, nunca, jamais participei de simulados de incêndio, por exemplo. Quando morei em prédio de apartamentos, igualmente – e uma única experiência deste tipo já seria melhor do que nenhuma. Prevenção efetiva é hábito, ensaio, treino. Informação. Conhecimento.

Tanto ou mais do que leis, normas e regras no papel, hábitos salvam vidas. Conhecimento salva vidas. Educação salva vidas. Atitudes corretas salvam vidas.

Estamos, hoje, todos consternados com as dez mortes absurdas no alojamento de atletas do Flamengo. Uma cadeia de negligências explica a dor. “Se”, num punhado de coisas, uma só fosse diferente, todos estariam vivos – há responsabilidades em cascata para serem apuradas na investigação. Entretanto, vendo as filmagens, fiquei atônito com a incapacidade dos meninos em dimensionar as consequências das chamas. Mesmo com tudo falhando – e tudo efetivamente falhou –, ainda assim eles seriam salvos por uma melhor consciência de risco ou uma só aula exemplificando o que fazer em caso de fogo. Atenção: não estou culpando as vítimas pela incapacidade de se salvarem, e sim nossa insensata crença de que nascemos sabendo tudo. Do grupo, caso um só jovem fosse instruído, isso bastaria para o final ser diferente. Eles não tinham a menor ideia do que fazer. Ninguém nunca sabe o que fazer. Mesmo os heróis, ali, improvisaram.

Tanto ou mais do que leis, normas e regras no papel, hábitos salvam vidas. Conhecimento salva vidas. Educação salva vidas. Atitudes corretas salvam vidas. Com base no histórico recente das tragédias brasileiras, não chego a ser otimista no que se refere a responsabilização de pessoas e entidades no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Brasil. Porém, ao findarem essas poucas linhas, se um só dos leitores tiver a iniciativa de atuar em sua área de influência (empresa, escola, condomínio) para contratar consultoria capaz de dar uma palestra ou coordenar uma simulação, terei ganhado o dia. Se transformar isso em rotina, ganharei o ano. Ou, no mínimo, se a partir de hoje ensaiar a evasão em hotéis, já valeram os dois minutos da lauda. Aqueles meninos estiveram a vinte literais passos da salvação – se dados para o lado e momento certos. A você, no futuro, pode bastar um. Hoje.

 

Post Scriptum: Requiescat In Pace Ricardo Eugênio Boechat. Assim como o Latim – língua dita morta –, homens também podem transcender seu tempo e viver para sempre. Ser lembrado para sempre, ser sempre citado. Transformar-se em inspiração.

 

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6 Comentários
  1. Antônio Xavier Diz

    Excelente texto. É exatamente isto: um pouquinho de conhecimento e um pouquinho de prudência salvam vidas.

    1. Rubem Penz Diz

      Obrigado, Antônio!

  2. Herdina Diz

    Caro Rubem, concordo plenamente com o exposto. Tenho a experiência de participar em simulações de acidentes, inclusive com fogo para gerar um efeito real aos participantes. Isso para gerar noção do que será necessário enfrentar em uma ocorrência de fato. Acrescento à reflexão um simples curso de operação de extintores de incêndio, que corretamente aplicados, podem extinguir o princípio de incêndio sem permitir a evolução para uma catástrofe.

    1. Rubem Penz Diz

      Obrigado, Herdina! Concordo plenamente com o acréscimo. Abraços!

  3. Vanessa Diz

    Tudo que sei sobre segurança em caso de incêndio é o que aprendi em minha atual empresa. São severos no quesito segurança. Mas confesso que não levei pra vida particular. É uma ótima oportunidade. Excelente reflexão

    1. Rubem Penz Diz

      Talvez não conscientemente. Mas estás mais preparada para uma emergência do que a média. Com certeza!
      Beijo!

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