Crônicas de Botequim

Uma estação no gerúndio

Uma estação no gerúndio

Rubem Penz

Depois de uns invernos que ou não vieram, ou se recusavam a partir – e verões idem –, parece que a normalidade assentou a poeira em nossas plagas. Se não me engano (acho que não) houve um certo armistício climático. Ótimo, alguma harmonia há de sobrar inteira em tempos tão confusos: ao menos São Pedro resolveu dar uma trégua. Mesmo passando um frio danado ou um calor sufocante, sou apreciador do inverno e do verão ortodoxos, páginas abertas tanto para serem apreciadas, quanto gemidas. Porém, estáveis. Previsíveis. Em plenitude.

Sendo assim, posso comemorar as delícias das meias-estações: outono, bem-vindo seja!

Viver os movimentos do outono é, paulatinamente, estar pronto para o recolhimento.

As estações de transição no Paralelo 30 são especiais. Nelas, podemos curtir o clima em pleno gerúndio. São momentos de viradas de página, mas daqueles que fazemos sem muita convicção, ora retornando ao verão para conferir uma foto, ora avançando para o inverno antecipando fatos. Os gaúchos vivem, igualmente, movimentos de cá e lá. O dia pode começar invernoso, chegar ao ameno primaveril, dar um beijo rápido num calor de quase verão e, só no entardecer, parecer-se, ao certo, com o outono que é. Dias de sair de casa com roupa leve e levar um agasalho dependurado no braço só para garantir. Vai que…

Todavia, lembrando-me de uma crônica antiga inspirada em uma citação de Rubem Braga, noto que já me referi ao gerúndio como sendo um tempo verbal triste. E não creio ter mudado de ideia. Vou além – é muito nosso celebrar a melancolia. Neste sul, o frio tempera, a solidão afiança, o vento molda. Fosse diferente seríamos mais brasileiros e, óbvio, somos menos. Viver os movimentos do outono é, paulatinamente, estar pronto para o recolhimento. O preciso clima impreciso nos é imprescindível. Somos serpentes em plena troca de pele. Veja: chega a primeira correspondência do inverno em nossa caixa de correios, e diz “graças ao outono, e ao gerúndio, estou chegando”.

***

No dia 20 de março é comemorado o Dia Internacional do Contador de Histórias. A data foi criada em 1991, na Suécia, e tem como principal objetivo reunir os contadores e promover a prática em todo mundo. Celebrado mundialmente, é comemorado no início da primavera no hemisfério norte e do outono no hemisfério sul. Contar histórias, seja ao virar página por página, seja de cor, é um ato de transformação que em tudo combina com as estações de passagem. Parapenz!

 

 

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