Crônicas de Botequim

Gigante da Beira-Rio 50 anos

Gigante da Beira-Rio 50 anos

Rubem Penz

Domingo passado o estádio do Inter completou meio século e, incrivelmente, eu estava lá na sua inauguração. Tinha cinco incompletos, ainda era o caçula em casa (meu irmão nasceria logo a seguir, em julho) e o pai cometeu a ousadia de me levar na partida contra o Benfica, um marco para a torcida alvirrubra. Vibrei quando Valdomiro, um ídolo especialmente folclórico, balançou as redes pela primeira vez. Era o início de um período marcado por grandes conquistas e projeção. Ser colorado era delicioso. Minhas irmãs e eu éramos torcedores “de carteirinha”.

Porém, admito não ter tão claras assim as imagens daquele jogo. Como havia, antes, os atos formais, devo ter cansado. Lembro da banda (teria sido a Banda da Brigada?), de soltarem pombas e balões, muitos fogos de artifício e discursos. Lembro, também, do orgulho do pai ao torcer pelo time por herança do meu avô, que morrera muito jovem – três dos seus irmãos, meus tios, foram “comprados” para o lado tricolor do Rio Grande. Mas não estavam muito claras algumas questões de fundo: por que ser colorado, naquele instante, soava tão aguerrido?

Vi pessoas humildes engrandecerem-se ao participar desta epopeia do

“Clube do Povo”.

Há fragmentos de memória que me levam até pelo menos um jogo no antigo Eucaliptos. A certeza veio no instante em que, anos mais tarde, estive lá dentro: soava conhecido. Era um estádio de todo honesto, mas sem comparação com o magistral Olímpico. Isso, quando somado a uma década de domínio nos campeonatos estaduais, deixava gremistas de orgulhosos a soberbos. Apenas isso explica o emocionante grau de entrega de nossa torcida, sacrificando seus trocados ao aderir a campanhas por tijolos para erguer um palácio sobre as águas, literalmente. Hoje, quem passa por lá custa a crer que se chegava de barco em seu entorno. Vi pessoas humildes engrandecerem-se ao participar desta epopeia do “Clube do Povo”.

De lá para cá, a dupla Gre-Nal oscilou momentos de glória e obscuridade – a famosa gangorra. Uma constante, entretanto, prevaleceu: a grandiosidade do estádio Gigante da Beira-Rio. O mesmo que, para a Copado Mundo, recebeu uma repaginada capaz de posicioná-lo entre os mais belos complexos esportivos do planeta. E não é um colorado quem fala: vi brilharem os olhos de dois baianos ao passarmos a bordo do ônibus da Linha Turismo, sexta-feira. Disse para eles: ele completará 50 anos depois de amanhã, e eu estava presente na inauguração! Uma das paisagens mais belas de nossa Porto Alegre denunciava certa face da igualdade clubística a completar meio século: sim, eu daquele momento até sempre, estava de orgulhoso a soberbo.

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