Crônicas de Botequim

Ondas

Ondas

Rubem Penz

Você já teve a oportunidade de ver uma criança pequena, entre dois ou três anos de idade, desafiando a fúria do mar? Ela está na areia e habita o mundo dos gigantes: todos, a começar pela mãe e pelo pai, são enormes. O mar, então, um colosso. E ele tem ondas. Suas ondas avançam na direção da areia e, depois, recuam de volta para a água. Em cada vazante, infla sua coragem e a criança corre como se perseguisse um bicho em fuga. Porém, quando nova onda se forma para vir em sua direção, a criança dá meia volta e retorna em escandaloso pânico acompanhado de gritos agudos. Falso pânico, é claro – há um sorriso mal dissimulado em seu rosto.

Você já teve a oportunidade de ver uma criança grande, entre oito e nove anos de idade, desafiando a mansidão de um cãozinho doméstico? Às vezes meio entediada, ela está diante de um animal pequeno, ainda que adulto, cuja autonomia fascina: tem humores, vontades, urgências próprias. E, com raras exceções, paciência limitada. E ela futuca, entica, atiça, até tirar o bicho do sério. Ao lograr êxito, com medo de levar uma mordida, foge apavorada como se nada daquilo estivesse no script. Pavor falso, é claro – há uma satisfação indisfarçável em seus olhos.

Medo que esconde o desejo de ser reconhecido em seu poder.

Você já teve a oportunidade de ver um adolescente tramola, entre treze e quinze anos de idade, desafiando o silêncio de uma madrugada? O mundo está ali, ordenado e calmo, em contraste inequívoco com sua turbulência hormonal. Paz mal e mal arranhada por um cão latindo na distância. Isso não pode ficar assim! Então, ele soma-se aos pares em um grupo coeso e cumpre um roteiro de gritos, refrãos bagaceiros, chutes em latas, talvez até pequenos delitos, até que as janelas da vizinhança se acendem e adultos saem porta afora. É hora de disparar com receio de ser flagrado. Medo que esconde o desejo de ser reconhecido em seu poder.

Você já teve a oportunidade de ver um adulto feito, entre trinta e quarenta anos de idade, mais ou menos, desafiando a morte em esportes radicais? Ela, que o tempo inteiro paira insidiosa sobre a existência de cada um de nós, está olhando para outro lado, ocupadíssima na ordem natural das coisas, e não lhe dá atenção. É quando ele faz de um tudo para colocar a vida em risco, propondo um jogo no qual todas as suas fichas são postas à mesa. Às vezes até blefa. Porém, ao escapar da morte, vibra intensamente como se nada fosse mais importante do que respirar outra vez.

E, por acaso, você já teve a oportunidade de ver um idoso, entre uns setenta e oitenta anos, desafiando corajosamente sua vontade de intervir enquanto os netos correm das ondas?

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