Crônicas de Botequim

Vida funk

Vida funk

Rubem Penz

Por favor, em sua mente, agora, antes de continuar a leitura, desenhe uma casa.

(…)

Deixa eu adivinhar: há uma porta à esquerda, uma janela ao lado, uma chaminé no telhado e uma árvore no jardim. Dependendo do tempo demandado, há chance de ter um sol, uma nuvem, um pássaro no rumo do horizonte. Ela não estará no vazio: muitas vezes já nos disseram que os psicólogos reparam em quem deixa tudo sem chão. Se a casa tiver uma porta-janela-chaminé-árvore-nuvem-sol-pássaro-no-horizonte, igualzinho ao outro desenho, e ao outro, e ao outro mais, tudo bem. Olham para o chão. Precisa ter chão.

Fico aqui pensando: e se desenharmos outra casa? Não sei, um trailer, por exemplo. Um container, um ninho de joão-de-barro, a marquise de uma loja? Um edifício de vinte andares, doze janelas por andar e, no alto, incontáveis chaminés parecendo mais um paliteiro? Uma oca, um iglu, a boca de uma caverna? Em nenhum momento estaríamos errando a proposta: desenhe uma casa. Feito! Qual o problema? Talvez a necessidade de explicações.

Este é o drama dos criativos: devem explicações. Sempre.

Poucos são sensíveis ao fato de que existam pessoas naturalmente questionadoras, inquietas, imaginativas.

Tal exigência é tão cansativa a ponto de muitos criativos desenharem a mesma casa-clichê só para não se incomodar. No fundo, no fundo, queriam ao menos colocar a árvore de ponta cabeça, só de sacanagem. Mas, não: isso demandaria muitas explicações. Se for criança, pediriam a presença dos pais: olha a árvore. Está tudo bem em casa? Algum trauma, descontrole, sofrimento? Xixi na cama? Estão dando café preto para essa criança? E, de volta ao lar, um rosário de esclarecimentos (muitas vezes resumidos em um deu-vontade-só-isso sincero).

Reconheço: a reação das pessoas diante do criativo é legítima. Poucos são sensíveis ao fato de que existam pessoas naturalmente questionadoras, inquietas, imaginativas. Repetir fórmulas é mais seguro, é o normal. E falta para muita gente a perspectiva histórica colocando o normal de hoje como impensável no passado e, talvez (quase certo), no futuro também. É nessa hora que entram os mestres de verdade para estimular os criativos a não se deixarem aprisionar em estereótipos. Mesmo com o alerta: não vai ser fácil.

E agora, façamos o quê?

(…)

Aos que se reconheceram nestas linhas, tenho apenas um apelo: na dúvida, para não alertarem os gansos, coloquem chão em todos os desenhos. Tipo mantra de funk carioca: chão-chão-chão…

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