Crônicas de Botequim

País da contramão

País da contramão

Rubem Penz

Domingo passado, quando vi o holandês Max Verstappen perder seis posições em menos de cinco segundos na largada do GP da Áustria, lembrei-me de quanto seguimos patinando aqui no Brasil. De quatro em quatro anos colocamos o país no grid e, mal se apagam as luzes vermelhas, enquanto outras nações avançam, marcamos passo. Pior: com um talento impressionante para repetir sempre os mesmos erros. E a F1 traz novo exemplo.

Estou me referindo ao plano de criar uma nova pista no Rio de Janeiro, retirando de Interlagos o GP do Brasil, cujo contrato entrou em fase de renovação. Sem entrar nos meandros do impacto ambiental da construção de um novo autódromo (sim, ele existe), fixo-me numa pergunta mais básica do que a troca de pneus: por quê? Será mesmo para fomentar o turismo? Não: o Rio já conta com a mais completa gama de atrações do Brasil, começando pela cidade em si, com suas praias, terminando pelo Carnaval. Além do mais, os amantes da velocidade são focados no evento, quase como turismo de negócios, e não tenho notícias de que São Paulo deixou de hospedar alguém ultimamente.

Cem por cento dos brasileiros têm a mesma resposta quando são perguntados sobre quais deveriam ser nossas prioridades

De acordo com as notícias, a nova pista seria totalmente financiada pela iniciativa privada e precisaria ficar pronta em um tempo bastante temerário para obras de tal envergadura. Gente, vi Fittipaldi ser campeão na Lotus. Logo, não nasci ontem. No Brasil, de um jeito ou de outro, cedo ou tarde, essas despesas caem no bolso do contribuinte, seja por linhas de crédito, isenções ou subsídios. Tão certo quanto a bandeira quadriculada ao final da última volta, o processo será conduzido por mãos hábeis em derrapar na curva de propósito, só para a entrada do safety car por nós patrocinado. Ainda ontem tivemos os escândalos da Copa do Mundo e das Olimpíadas para nos ensinar alguma coisa. Não é possível que nada aprendamos, nunca.

Outra coisa: o que fazer com Interlagos, depois? Um autódromo não vive de uma só corrida, lógico. Mas o mais importante certame mundial da categoria de motores é a sua maior fonte de renda e projeção. Paulistanos são sócios forçados desta praça esportiva municipal, e eles não são menos brasileiros do que os cariocas, mineiros ou gaúchos. O dinheiro já foi investido e a sua saúde financeira é boa para todos. Nascido nos anos 1940, em 1972 passou a sediar o GP do Brasil, e o nome disso é tradição. Jacarepaguá, no Rio, foi o endereço por alguns anos, e sequer existe hoje em dia. Nossa pátria, passando inclusive por um recesso de pilotos na elite, precisa, mesmo, dois grandes autódromos? Não há centenas de urgências na pista?

Domingo passado, quando o holandês Max Verstappen cruzou a linha de chegada para ocupar o alto do pódio, depois de ultrapassagens sensacionais nas últimas voltas, vibrei como vibrava nos tempos dos ases no volante da minha infância e juventude. Uau! Nem sempre uma largada péssima produz resultados desastrosos. Porém, a reversão de expectativas cobra talento, afinco e, acima de tudo, decisões acertadas. Cem por cento dos brasileiros têm a mesma resposta quando são perguntados sobre quais deveriam ser nossas prioridades (por isso nem preciso elencá-las aqui). Custa muito engatar uma primeira o quanto antes e, só de vez em quando, evitar a contramão?

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