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Não há muro, há trincheiras

Não há muro, há trincheiras

Rubem Penz

Hoje vou falar com você, acusado de ser murista ou isentão. Aquele visto com desprezo, suspeito de covardia, tachado de vaselina nas redes sociais e rodas de conversa – a maior parte das vezes pelas costas (o que diz muito sobre quem denigre sua imagem). Pois venho a afirmar de modo categórico: ao contrário do que deseja impor quem vocifera, não há muro. Existem trincheiras. Você jamais se colocou acima dos outros. Eles se rebaixaram.

Trocando em miúdos, as pessoas com a tendência de serem ponderadas, capazes de analisar fatos sem a cegueira da paixão nem a surdez da histeria, habitam o solo a separar dois exércitos afundados em certezas cavadas em torno de si. Enquanto ambos ficam lá, protegidos por tais convicções, nenhum disparate disparado pelo oponente lhes atingirá – há um escudo intransponível construído por acusações contrárias. Ao mesmo tempo, o menor sussurro vindo do bom senso, parecerá conter pólvora.

Enquanto os cães ladram, a carruagem dos absurdos passa incólume.

O mais estranho nesta guerra de bugios é fazerem de tudo para empurrar você para o outro lado e cair na trincheira adversária. Nada pode ser mais senil! Mediadores por excelência deveriam receber tentativas de conquista, jamais serem o alvo de ataques infrutíferos. Mas aí tem um problema: os ditos isentões sofrem de consciência claustrofóbica – nunca habitarão trincheiras insalubres. Assim, estarão sempre abertos a todos argumentos, desde que acompanhados de exames de consciência. Faça o que eu digo e não faça o que eu faço? Não cola.

Quer saber? Eu mesmo já não suporto mais a pecha de estar sobre muro. Ou isso é uma construção fantasiosa, ou este muro é largo como um território nacional. A maioria das pessoas com inteligência mediana já notou a farsa da polarização, alimentada incansavelmente por dois polos que se beneficiam do atrito. Enquanto os cães ladram, a carruagem dos absurdos passa incólume. Privilégios, saques, compadrios, oportunismos, desfaçatez… Justo onde deveria existir decência, responsabilidade, justiça, consensos, altivez, cooperação, honestidade. Paz.

Se você, como eu, não deseja ser empurrado ou puxado para o buraco, comece por reconhecer-se como alguém que ainda se mantém em bom nível. E olhe para os lados: somos a atônita e silenciada maioria.

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