Crônicas de Botequim

Cedo demais

Cedo demais

Rubem Penz

Em memória de José Henrique Campani

– Neco –

A juventude é um território que jamais deveria ser visitado pela morte. Eu sei, isso é utópico. Quantas vidas são ceifadas no florescer dos anos, na intensidade da energia, na ânsia dos sentimentos? Muitas. Aliás, se não fossem todas as outras, bastaria essa razão para que eu odiasse as guerras – em batalhas vis, perde-se vidas ainda, e irreversivelmente, juvenis. Sempre me emociono com a onda de protestos da geração hippie contra a Guerra do Vietnam. Paz & Amor, pregavam. Paz e amor.

Domingo passado cumpri a severa obrigação de me juntar aos amigos na tarefa de consolar uma família pela perda de um jovem. Ele não era um jovem qualquer: foi um jovem que me viu nascer, a acompanhar minha infância e juventude, com filhos da mesma geração dos meus. Um jovem a sorrir com a chegada dos meus cabelos brancos, como quem diz: basta viver em paz e amor. Um jovem a sustentar uma calva reluzente – a mesma que envelhece qualquer um –, barbas dignas de Papai Noel e, nem mesmo assim, mostrava sinais da passagem do tempo. Um tipo particular como poucos são: os eternos jovens.

A jovialidade é patrimônio de quem sabe sorrir, mostra-se parceiro para o que der e vier, vive o dia e vive a noite com igual deleite.

Coisa de família. Seu pai, o vô Egon, partiu já próximo de completar um século e, de seus olhos, gestos e espírito, nada além de juventude se percebia. A jovialidade é patrimônio de quem sabe sorrir, mostra-se parceiro para o que der e vier, vive o dia e vive a noite com igual deleite. Riqueza de quem sabe apreciar arte em geral, música em particular. Virtude de quem cultiva amigos com um zelo de jardineiro. Em um dos nossos últimos encontros, eu e o Neco juntos no Café Fon Fon para uma noite de música, precisei sair antes do show para ir a uma farmácia, ali na Venâncio, ao lado do Pronto Socorro. Quem disse que me deixou ir só? Enriqueceu o caminho de ida e de volta com seu astral maravilhoso. Honrou-me com sua companhia.

Ai, como é triste a morte de um jovem. Mesmo aos setenta e três, pois juventude não se mede na cronologia. Ainda assim, há espaço para júbilo. Foi um privilégio ser seu contemporâneo, aprender com o Neco tudo o que ele herdou de seu pai e, espero, tenha legado aos parentes de sangue e emprestados: domar o tempo, estimar a vida. Vi menos tristeza do que saudade antecipada nos olhos da tia Maria Helena, da Simone, da Dora. Intuí o mesmo no olhar intercontinental do Dudu. Nunca será fácil dar este até logo para um jovem. Sempre parecerá cedo demais.

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