Crônicas de Botequim

Equalizações

Equalizações

Rubem Penz

Ao habitar o mundo da música, tornamo-nos íntimos de alguns conceitos os quais nem todos dominam – apesar de os reconhecerem, digamos, de ouvido. A equalização é um deles, e ela se encontra no meio do caminho entre a emissão e a recepção do som. Depois de captados ou gravados os diversos canais de áudio, quem equaliza oferece ao ouvinte um resultado harmonioso e equilibrado de frequências e volumes de modo a tudo chegar na medida certa para a compreensão do todo. Uma arte, um ofício no qual é necessário contrabalançar tanto bom senso quanto bom gosto.

Há muita vaidade na música – aqui, nenhuma novidade. Uma das funções da equalização é justamente impedir que o desejo de protagonismo de uns, mais do que sobrepujar os demais, prejudique o coletivo. Por exemplo: no afã de ser melhor escutado, um baterista avança sobre o espaço sonoro do contrabaixo (ou vice-versa) e grande parte das nuances de base se tornam inaudíveis. Acorde por acorde, há o desperdício de empenho do colega no palco e a inalcançável clareza para quem deseja usufruir de uma obra completa. E uma obviedade nem sempre é contemplada: não existe instrumentos maiores e menores na execução dos arranjos – todos cumprem funções complementares. O mínimo soar de um guizo pode ser crucial em determinado momento, por mais que o piano de cauda pareça dominar a cena.

Não há harmônico inútil na construção de um som, assim como não há informação inútil na percepção de uma realidade.

Pensava nisso ao me dar conta de que no mundo da produção de conteúdo existe algo parecido, uma espécie de equalizador oculto agindo de forma mais ou menos competente (estou qualificando de modo generoso). E quando ele se faz mais necessário? No exato instante em que determinados temas ou personalidades ganham um volume excessivo, acidental ou propositalmente, a tomar de assalto todas as frequências perceptíveis. Antes de ser certo ou errado, a hipertrofia é um prejuízo para a compreensão dos fatos. Não há harmônico inútil na construção de um som, assim como não há informação inútil na percepção de uma realidade. Às vezes o arranjo da sociedade depende de um sutil pizzicato na hora certa – e é bom que os tímpanos estejam calados.

Num mundo utópico (ingênuo?), a figura do equalizador de conteúdo poderia ser dispensável, ou seja, aos ouvintes caberia equilibrar as informações. Na vida real, a todo momento determinadas emissões se tornam hipertrofiadas e, muitas vezes, desproporcionais. Por isso é tão necessária a figura do mediador. Ele está em nossas vidas cumprindo muitas funções: professores, editores, curadores, programadores… Também pais, irmãos e amigos. A eles, antes de pretender calar vozes, devem compreendê-las como necessárias e, sim, contemplar sua importância no arranjo social. E dar espaço para que sejam percebidas. Talvez até, inclusive e decididamente, identificar os silêncios significativos.

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