Crônicas de Botequim

Varado

Varado

Rubem Penz

Desde a chegada do árbitro de vídeo (VAR) ao futebol brasileiro, o apito, ao invés de se tornar indiscutível, é o tema mais discutido em rodas de comentaristas formais e informais. Logo, há alguma coisa muito errada neste negócio. E, antes que se pense o contrário, reconheço que olhos bigbrodianos alterariam vexames históricos como o gol com a “Mão de Deus”. Então, não é questão de ser a favor ou contra, apenas de pensar no que está acontecendo.

Primeiro, seria o caso de demitir os auxiliares de linha – eles se tornaram peças alegóricas por não ter condições de competir com o olho eletrônico na marcação de impedimentos. No entanto, o caso grave não é o rebaixamento de status do bandeirinha. Complicado, mesmo, é imaginarmos as câmeras como capazes de medir as sutilíssimas nuances de um esporte de contato. Tais impressões só alcançam chance de fidelidade pelos cinco sentidos de um árbitro próximo e bem treinado, experiente, capaz de reconhecer a lealdade, a simulação, a maldade. Quando a maior parte das decisões são revertidas depois de olharem os vídeos, há um claro sinal de que o árbitro de campo está abrindo mão de suas prerrogativas. Acovardado perante a opinião pública. Irrelevante.

Complicado, mesmo, é imaginarmos as câmeras como capazes de medir as sutilíssimas nuances de um esporte de contato.

Será que estou exagerando? Duvido. Fosse aplicado o VAR com o atual grau de recurso confirmado em todo o jogo, e não apenas nos momentos considerados capitais, seria o fim do futebol. Reverteriam arremessos laterais, escanteios, jogos perigosos. Ao dar-se conta do fato, nenhum jogador pararia de pé quando submetido a uma marcação próxima (seriam 11 Neymares Júniores para cada lado). A cada escanteio, todos, repito, todos estariam no chão antes de a bola concluir a viagem até a grande área. Para o olho eletrônico, encostou e caiu, basta. Teríamos 37 minutos de verificação por oito de bola rolando por tempo. Alguém pagaria ingresso?

Eis o ponto que desejava chegar: se em dois, três ou cinco momentos de auditoria do VAR o árbitro está mudando sua decisão em todas, ou na maioria das vezes (e não numa minoria ínfima), por raciocínio lógico ele também está equivocado na maioria das demais decisões corriqueiras, alterando, assim, o destino das jogadas. Ou alguém quer me convencer de que ele só escolhe errar quando é perigo de gol?

Diz-se que boa arbitragem é aquele que nos faz esquecer que o juiz existe. Dou um passo adiante: daqui para frente, boa arbitragem será aquela que fizer o VAR passar varado.

 

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