Crônicas de Botequim

Pra já versus vamos ver

Pra já versus vamos ver

Rubem Penz

Existe todos os dias duas forças digladiando em meus pensamentos: o ímpeto de jamais deixar para depois e a ponderação em busca do tempo certo das coisas. E cada qual tem seus aliados na batalha ininterrupta.

O exército que podemos denominar pra já traz em sua linha de frente a coragem, a pressa e a sensação de urgência. Juntos, estes sentimentos derrubam as muralhas do bom senso e me colocam no território das ações poupando tempo ou, às vezes, perdendo o tempo certo. Ora dão motivos para orgulho e louros, ora causam desastres. Nunca sei com certeza se deveria lançar mão destas forças e, dizendo isso, já estou com o outro pessoal a tentar, e conseguir, impor-se.

o pior dos mundos é avançar quando esperar seria o certo, e esperar quando o tempo joga contra a decisão

Sim, habita em mim a armada do vamos ver, antagonista natural no processo decisório. Lá estão o receio, a calma e precaução a propor outra estratégia: antes de agir, mande um emissário até a fronteira. Pode ser ele um espião intruso no que possa existir para além da ação, lá no castelo das consequências; ou pode ser um negociador diplomático. Nossa, parecem tão sábios! O problema aparece quando especulam cenários irreais, ou não se dão conta de que estão sendo manipulados. Pior: quando as oportunidades passam e não se repetem.

Minha inabilidade em lidar com fracassos torna as batalhas sangrentas. Eu sei que ambos estão a meu favor, porém seus métodos são incompatíveis. Mente quem diz ser possível num só tempo aliar o ponderado e o audaz. O máximo que fazemos e escolher entre um ou outro para tomar a decisão do momento. Quem só usa o pra já vive espatifando veleiros nos rochedos. Para os que só se socorrem do vamos ver, o vento nunca sopra para o cais. E o pior dos mundos é avançar quando esperar seria o certo, e esperar quando o tempo joga contra a decisão.

Um exame de consciência revela certa preocupação: estou inflacionado de diplomatas no batalhão interno. Resta especular que, dentre eles, possa existir uns mais impacientes – no fundo, no fundo, agentes infiltrados do exército pra já em busca de agilidade.

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