Crônicas de Botequim

Bem-te-vi!

Bem-te-vi!

Rubem Penz

Depois de perder o sono, e de ficar uma hora girando na cama, nada resta se não se levantar antes do alvorecer e sentar-se ao computador para escrever, ou tentar. Os prêmios de consolação serão o ar fresco da madruga entrando pela janela – atenuando o verão –, a troca das cores no céu e o silêncio mal e mal interrompido por galos no cantar distante. Dito assim, quase vale a pena padecer de insônia…

Esta era a cena de quinta-feira passada quando, de surpresa e susto, um guéééééé soou alto feito um alarme na varanda do estar íntimo, bem na porta janela ao meu lado, aberta (ou só na telinha). Virei o rosto aturdido e notei que estava sendo observado por um jovem bem-te-vi, apoleirado na grade com seu peito bem amarelo e máscara nos olhos, talvez curioso em analisar um humano com o rosto hipnotizado pela tela de luz. Quando nossos olhares se cruzaram, gritou novamente. Ficamos ali, um olhando para o outro, até que o tédio ou a fome ou uma fêmea por perto ou mais o que fazer o fez voar. Nos fez voar.

Ter um bem-te-vi de estimação foi um privilégio.

Pousei mais de quarenta anos atrás, no dia em que tiramos do chão – e da morte iminente – um filhotão de bem-te-vi ao pé do guapuruvu que ainda existe na esquina da quadra da casa dos meus pais. Chegara a hora de voar e uma malformação em sua asa selara o trágico destino natural. Levamos para casa, óbvio. O que não faltaria era companhias aladas – naquele tempo, o pai tinha um viveiro enorme, cheio de pássaros, e alguns em gaiola. Demos a ele o pouco original nome de Guegué, seu constante chamado.

Ter um bem-te-vi de estimação foi um privilégio. Como não voava – ou voava apenas tanto quanto uma galinha –, foi criado com gaiola aberta, andando pelo pátio. Mas suas histórias merecem uma crônica inteira, ou uma série delas (a começar pela insuspeitada amizade com nossa cadelinha Fox), e não um arremedo numa prosa que já se estende. Por hoje, e não é pouco, queria apenas dividir com vocês o poder do encontro com um amigo para nos trazer recordações capazes de aquecer o coração.

Sei que não era. Mas gosto de pensar ter sido o Guegué a passar aqui em casa para dar um oi, mandar notícias da minha meninice, do meu pai, da Chica, do viveiro, do cardeal de pernas grossas pela idade, da mesa cheia de irmãos, do zelo incansável da mãe, da vizinhança, da minha história. Os causos do bem-te-vi ficam para uma próxima.

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