Crônicas de Botequim

Falência nossa de cada dia

Falência nossa de cada dia

Rubem Penz

Fosse Porto Alegre um corpo, o encontro entre a Av. Ipiranga, a Antônio de Carvalho e a Bento Gonçalves seria um gravíssimo entupimento de artéria a provocar infarto na Zona Leste. É o cruzamento mais bizarro que existe, pois nem poderia se chamar de “cotovelo”. O nome aproximado seria “nó”. Mas quem diz que a cidade olha para os exames a gritar o fato?

Num passado recente, a doença viária não parecia tão grave. Mesmo sendo Viamão um município em que ocorre o fenômeno de cidade-dormitório, o maior fluxo de pessoas provinha das classes C e D – o mesmo da Lomba do Pinheiro. Portanto, estavam em sua maioria acomodados no transporte coletivo. Tanto que a Bento nem duplicada estava…

Com o tempo, a ampliação do uso do automóvel pela população em ascensão econômica e a explosão dos condomínios – ocupados pela classe média –, modificou completamente o fluxo na Av. Bento Gonçalves nos horários de pico. Em Viamão, por exemplo, a retenção ultrapassa o Parque Sant Hilaire, transformando em mais de hora o que deveria levar no máximo uns 15 minutos para ser percorrido.

O dinheiro por dia indo para o ralo da ineficiência financiaria uma grande obra viária com facilidade.

O impacto econômico e ecológico é brutal: milhares de litros de combustível queimando inadequadamente. O impacto na saúde das pessoas, também. A cada ano são menos horas de sono, pois se precisa sair cada vez mais cedo; também o stress e, Deus nos livre, o fantasma de estar com um problema de saúde urgente na hora errada. O dinheiro por dia indo para o ralo da ineficiência financiaria uma grande obra viária com facilidade.

Governo, gente, deveria servir para isso: gerenciar a sociedade com vistas a estancar prejuízos, impactar na qualidade de vida, diagnosticar doenças urbanas e tratar delas. Fazer o que nenhum cidadão, sozinho, é capaz. Resolver esse entupimento será de um benefício incalculável. Como? Com viaduto, túnel, outra coisa? Não sei – sou ninguém perto dos engenheiros que estudaram para isso e têm seus salários pagos por quem acredita no termo “servidor público”. E eles são comandados por quem ganhou nossos votos na crença de ser capaz de gerir.

Isso, ou assumir a falência dos órgãos.

 

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