Crônicas de Botequim

1111 de setembro

1111 de setembro

Rubem Penz

Sabe aquela tradicional pergunta do que você fazia quando recebeu a notícia da morte da Elis, do Getúlio (para os mais velhos) ou do Michael Jackson (para os mais novos)? Como sentiu a queda do Muro de Berlim? Ou, claro, onde estava quando dois aviões derrubaram as Torres Gêmeas? Pois é, juro que pensava termos sido testemunhas da História, aquela com “H” maiúsculo, em quantidade até generosa de eventos. Descobri que não.

Desde dezembro de 2019, o mundo está experimentando o equivalente a centenas de aeronaves colidindo em nossas casas e escritórios e lojas e monumentos e, claro, em nossos corações e mentes. Múltiplos 11 de setembros em forma de queda de dominós. A expressão de perplexidade e a incredulidade aterrorizante de quem residia ou visitava Manhattan espalhadas pelo mundo. A lotação dos hospitais e o sistema de atendimento colocado em xeque em escala continental. A mudança da impressão à certeza de que nada será como antes.

Cada um será um bombeiro nas ruas desta Nova Iorque global.

Lembro de um amigo ter batido uma foto com seu filho pequeno, ambos pousando ao lado de uma capa de jornal em 2001, para que guardassem a memória do evento de repercussão planetária. Hoje, será necessário compor um diário para cumprir o mesmo efeito. Muitos álbuns de imagens da China, da Itália e, em breve, do Brasil. E o mais incrível: fotos da nossa cidade, bairro, rua e casa. Da nossa família reagindo ao ataque de um vírus pandêmico capaz de fazer ar, água e terra arrasadas. Todos convocados a ser protagonistas.

Se a TV transformou o “tempo real” de 11 de setembro na mimese de um filme de cinema catástrofe, o abrir das nossas janelas para ruas desertas retira a trama das telas para a experiência real, intensa e estendida no tempo. Autoridades sanitárias distribuíram o script – nós, atores, devemos fazer nossa parte. Cada um será um bombeiro nas ruas desta Nova Iorque global. Este é nosso papel diante da História. O futuro julgará nosso desempenho e saberá quem foram os verdadeiros heróis. Força!

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