Crônicas de Botequim

Crônica ululante

Crônica ululante

Rubem Penz

Nunca vou esquecer a tarde em que, no distante 1987, tive a insatisfação de ler uma resenha crítica de Coração Satânico (Angel Heart) na Revista Veja antes de ver o filme. Eu estava uns quinze anos distante de escrever minhas primeiras crônicas, e alguns anos antes de aventurar na leitura de Freud, mas já guardava alguma perspicácia em notar aquilo que, mesmo não escrito, pode ser captado por bons leitores. E maldisse toda a geração anterior e futura do articulista por ter estragado o encanto do filme ao sugerir um spoiler desnecessário. Não que tenha me arrependido de ver depois – adorei. O problema foi a fruição de um thriller de suspense quando se sabe o final.

Por isso que escrever sobre uma obra cinematográfica, ou a partir dela, demanda jeito, prudência, respeito com quem virá a ler. Finda a tarefa, é necessário voltar ao texto e, frase por frase, se perguntar: revelo aqui algo que me surpreendeu? Entrego aqui uma conexão capaz de estragar uma cena seguinte? Nesta altura, quem assiste tem consciência desta faceta da personagem? Vale a pena antecipar este detalhe, ou ele é relevante demais? E não adianta tentar esconder numa fumaça retórica – ao bom leitor, meia frase basta.

quem dá spoiler, quer brilhar ofuscando a experiência dos outros

Assim, por mais sedutor que seja, evito ler sobre um filme sem antes assisti-lo. Não confio nessa turma dos cadernos e blogues e sites de cinema. Ou, pior: creio que alguns têm um desejo sádico de colocar minúsculas armadilhas dentro de frases inocentes, só para colocar água no chope dos outros. E, se reclamarem, ainda dirão coisas como “mas isso estava na cara”… Ótimo, que seja! Ainda assim, deixe-me descobrir sem seu brilho. Isso: quem dá spoiler, quer brilhar ofuscando a experiência dos outros.

Ah, por que lembrei de Coração Satânico? Porque assisti O Poço evitando ler artigos e comentários sobre o filme, e vi que fiz bem. Teria amaldiçoado a geração anterior e futura de pessoas a quem nada devo ou me devem. Poupei-me de dissabores, e isso é maravilhoso nestes tempos de ódios fáceis. Li depois, concordei com umas coisas, discordei de outras, numa boa. Apenas lamentei por quem não tenha meu hábito – identifiquei imprudências as quais, fosse eu, evitaria. Óbvio.

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