Crônicas de Botequim

Guilherme, Caio, Tício, Mévio e eu

Guilherme, Caio, Tício, Mévio e eu

Rubem Penz

Faz tempo um tema ocupa meu pensamento – a exclusão cultural. De todas as tragédias que devoram a periférica população brasileira, ela talvez seja percebida como um mal menor (a ignorância tende a ter suas consequências minimizadas diante da fome, das carências sanitárias, do frio, da violência e do desespero cotidiano). Porém, ao mesmo tempo, é um abismo tão oculto quanto opressor. Nascido onde nasci, crescido onde cresci, estudado onde estudei, vivendo onde vivo, em raras oportunidades pude experimentar os efeitos desta barreira. Não porque eu saiba muito, é evidente. Apenas pela razão de saber um pouco sobre muita coisa – o suficiente para ser classificado como alguém razoavelmente culto.

Pois o meio raro aconteceu no dia em que li um texto de Guilherme Pedreschi, aluno carioca da oficina Online – uma crônica conto com as personagens Caio, Tício e Mévio. Curioso, perguntei sobre o motivo para ele escolher tais nomes. Segundo Guilherme em nossa troca de mensagens, “Os nomes Caio, Tício e Mévio são os três utilizados como exemplo no direito Penal e Civil. Nos livros clássicos SÓ se usam eles, não sei o porquê! Acaba sendo engraçado, para quem fez direito”. Neste instante, uma enormidade de pessoas pode estar pensando: ora, TODOS sabem disso (para repetir o grifo). Acontece que a minha distância aos clássicos do direito Penal e Civil é abissal, tornando-se óbvio o contrário.

Em certo sentido, a exclusão social chega a ser pior do que o tão nosso “racismo brando”.

Espero que o leitor esteja atento ao detalhe não escrito acima: meu espanto não foi com a própria ignorância, uma vez que ignoro uma imensidão colossal de informações. Meu espanto foi uma incômoda vergonha que senti em não existir para mim a menor referência sobre algo que pareceu tão acessível, tão comum, a ponto de ser grifado. Não houve qualquer maldade no grifo – isso precisa ficar muito bem dito. Quase nunca há, e as exceções ficam por conta dos instintos soberbos de pessoas sem coração (lembrei-me agora do Brandão Filho e do Paulo Gracindo em “Primo pobre e primo rico”). E aí mora o perigo.

Em certo sentido, a exclusão social chega a ser pior do que o tão nosso “racismo brando”. Ela é inodora, insípida, invisível. Atua insinuando uma impressão de “não-pertencimento” nas rodas sociais. Exagerando para ser entendido, é como estar de pijamas numa festa a rigor – tipo, todos estão reparando que me sinto deslocado. E, tal qual um pesadelo, para piorar a situação, ninguém fala nada.

Só conheço dois antídotos para a exclusão cultural: o principal é a educação de base com qualidade – momento certo para adquirirmos a desmerecida/valiosa cultura geral. Outro é a curiosidade inata. O primeiro atua como um esteio, ou seja, eu não preciso ser especialista, basta ter uma breve noção (tipo “Napoleão Bonaparte” não ser tal qual Caio, Tício e Mévio). O segundo precisa nascer com a pessoa, algo parecido com o que fiz ao responder para o Guilherme questionando sua escolha. Não sei se nossa troca de mensagens teve potência suficiente para me levar à leitura de clássicos do direito Penal e Civil. Mas, agora, essas personagens já fazem parte do meu círculo.

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