Crônicas de Botequim

Bons pais

Bons pais

Rubem Penz

Finda abril, começo a ver lindos comerciais de TV a enaltecer o papel das mães. Comovo-me às lágrimas com elogios descomprometidos, pois, sim, a coincidência de datas precisa ser relevada. Dia das Mães, é? Nem havia lembrado… Hoje, porém, resolvi falar dos pais, ainda que não renda nenhuma visita para lojas e isso possa ser visto como insurgência. Acontece que assisti por esses dias dois filmes centrados na temática do sofrimento que passam os jovens na instável fase da adolescência, nos quais a figura do pai é retratada de modo interessante. São eles Lady Bird e Beatiful boy.

Greta Gerwing escreveu e dirigiu Lady Bird alcançando ótimos resultados: mais do que vitórias no Globo de Ouro e indicações ao Oscar, ganha o amor do público desde as primeiras cenas. É a tragicômica história de duas grandes mulheres. A protagonista, Cristine, traduz com rara precisão o pensamento das mulheres que nasceram nestes tempos de pós-feminismo. A coadjuvante, Marion, retrata com ainda mais fidelidade a força da mulher nos tempos de hoje, e o tanto de ônus consequente. Mas, espera aí: onde anda o pai conforme o prometido? Ele brilha nas sombras do conflito, exatamente no lugar em que retratos familiares antigos atribuiriam às mães. Larry está fragilizado pelas circunstâncias e, ao se tornar confidente da filha, passa a ser o amalgama amoroso na família.

Nosso caminho de ascensão, acreditem, passa pelo cabal fracasso do machão insensível.

Beautiful boy é um drama autobiográfico baseado no livro de memórias Beautiful Boy: A Father’s Journey Through His Son’s Addiction, de David Sheff. Nele, Steve Carell interpreta David, um afamado jornalista que fica com a guarda de Nicholas desde pequeno, após a separação do casal. Em novas núpcias, nascem mais dois filhos, menina e menino, separados do irmão mais velho por bons anos. O tema é bastante pesado – o vício em anfetaminas – e a direção de Felix Van Groeningen nos atira neste abismo, nada de panos quentes. Outra vez a inversão de expectativa me chama a atenção: é o homem quem melhor traduz o sentido de lar, sem que falte amor por parte da mãe. O desespero de fracassar diante das transformações impostas pela dependência química – o desconhecimento do próprio filho – aniquila aquele bom pai.

Sei que posso parecer recorrente no foco sobre os homens, e mais especificamente sobre eles nas relações familiares – fato até atenuado pela atual distância de minhas ex-crianças. É que considero nosso papel de agora importante demais para ser esquecido, e vi nos filmes ótimos retratos sobre tais inquietações. As novas mulheres estão aí e – espero… – nada indica um retrocesso em suas conquistas. Elas não querem, precisam ou merecem homens que se negam a evoluir também. Nosso caminho de ascensão, acreditem, passa pelo cabal fracasso do machão insensível. E o melhor primeiro passo se dará em casa, no compromisso em ser um bom marido e um bom pai.

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2 Comentários

  1. Isso. Acima dos papeis de sociais de gênero, que prevalece o humano. A verdadeira força vem mesmo é da superação das “fraquezas” . Uma cultura do humano , que é, em essência sensivel.

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