Crônicas de Botequim

A tal excelência

A tal excelência

Rubem Penz

Quantas pessoas estão dispostas a pagar o preço cobrado para alcançar a excelência? Essa dúvida é a chave para explicarmos o fenômeno capaz de transformar um rio caudaloso em conta-gotas e, no brutal afunilamento, construir gênios.

Vamos pegar, por exemplo, a marca de 10s para a corrida de 100m rasos. Seu dobro – 20s – é alcançável por uma multidão de pessoas. Porém, para baixar cada segundo na dezena os separa, é preciso uma combinação cada vez mais apertada de capacidade física (talento, porte físico, carga genética), aplicação técnica (treinamento e tecnologia) e esforço (resistência, foco, superação mental). E tempo, claro. No caso dos atletas de alta performance em velocidade, o tempo é grande inimigo: precisamos dele e a maturidade joga contra.

Mudando de área, jamais esquecerei a conversa que tive com meu amigo Maurício Marques, um dos mais virtuosos violonistas do Brasil, sobre o quanto estava insatisfeito com meu resultado como músico. Ele me perguntou: quantas horas por dia eu dedicava a ensaios e exercício de aprimoramento na bateria? Disse que, na melhor das hipóteses, conseguia ensaiar com o pessoal uma vez por semana (na pior, passava um mês sem que pegasse numa baqueta). E ele cravou sobre minha performance: para quem não estuda nada, fique muito satisfeito. Digo eu: devo alegrar-me de ainda, na música, correr os 100m em 20s!

Na música, assim como no esporte, há espaço para ser rio e ser gota d’água; para ser suficiente e raro…

Estes foram os pensamentos que me passaram na cabeça ao assistir uma apresentação informal da turma da Faculdade de Direito da Universidade da Cidade do Porto cantando e tocando “Burguesinha” do Seu Jorge – com direito a um “paranauê” incidental. Ah, quantas surpresas pode nos trazer uma turma de WhatsApp… A felicidade em ver a música brasileira ocupando corações e mentes mundo afora contrastou com o resultado: o que faziam era apenas, ou no máximo, uma aproximação de samba. Acredito que todos ali conhecem música, são afinados e capazes. Mas há um oceano de distância entre o que soava, e a mão esquerda (direita, se canhotos) de um Armando Marçal, Robertinho Silva, Fernando do Ó.

Agora, como cobrar excelência de rapazes portugueses sem a combinação de carga genética, familiaridade, talento e tempo de ensaio? Facilmente, um menino de 12 anos do Morro da Mangueira os supera. Veja: não exijo padrão Naná Vasconcelos, minha régua é sambista brasileiro mirim. Por outro lado, como não ficar super feliz com o show em todo honesto e alegre? Na música, assim como no esporte, há espaço para ser rio e ser gota d’água; para ser suficiente e raro; para ter como meta os 10s ou os 20s nos 100m.

Obrigado, Maurício, por, do alto de sua excelência, reconhecer valor em nós, músicos esforçados. A propósito, já te mandei o vídeo dos estudantes portugueses? Ainda não!? Peraí…

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3 Comentários

  1. Também assisti a “Burguesinha de Coimbra” e tive a mesma impressão! Aí entra a genética…
    Com todo o esforço do mundo, ovelha não é pra mato.
    Um abraço

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