Crônicas de Botequim

Depois de amanhãs

Depois de amanhãs

Rubem Penz

Há dois tipos de narrativas nascidas de um período tão emblemático como este em que estamos vivendo – imersos em uma pandemia com uma força a ponto de alterar a rotina de milhões de pessoas nos quatro cantos do mundo. Uma, mais imediata, capaz de gerar impressões quase instantâneas sobre os fatos. Outra, submetida a um processo de decantação e refinamento, construída para ganhar páginas impressas sem pressa, submetida ao distanciamento. Onde andará a crônica neste cenário? Talvez apenas no primeiro caso, mas posso estar enganado.

Gênero do imediato por excelência, suas mais variadas formas de expressão sobre o tema ocupam às pampas as colunas dos jornais neste vigésimo ano do século. Ora humoradas, ora trágicas; umas nascidas para denunciar, outras para acalentar os corações. Conclamando para atitudes díspares, crônica por crônica representam um caco da rotina despedaçada. Quiçá o vaso inteiro só seja possível de ser reconstruído colando uma nas outras, e para isso é necessário muito tempo. Assim, fica evidente ser ela uma impressão da urgência, imediatamente publicada no breve universo da página de jornal (e, vá lá, em seus repositórios digitais).

… muitas respostas só virão depois de muitos amanhãs, uma vez que vivemos uma espécie de hoje suspenso.

Alguns escritores mais ágeis e, principalmente, editores de igual ousadia começam, desde já, a distribuir livros com compilações de textos sobre a covid-19 nas prateleiras virtuais. Mas não é a regra. Coletâneas de cronistas de carreira tendem a buscar matéria prima em produções mais para trás um, dois, cinco anos. É quando se consegue distinguir o perecível do não perecível, editando somente o segundo grupo. É uma questão de coerência: denotar ao livro seu caráter atemporal. O que me deixa pensativo: o que será daquilo que venho produzindo sobre a pandemia do novo coronavírus cumpre as premissas deste critério? Talvez muito, talvez quase nada. Agora, agorinha, não dá para saber.

Outro problema: quando decorrido o tempo de descanso dos textos, recordar a pandemia será mesmo relevante? Se não – ou nem tanto – a produção pode estar condenada ao humilhante embrulhar dos peixes? Pensando assim, para fins de comparação, qual futuro está reservado para as publicações açodadas: serem o único registro duradouro de época, ou tão-somente livros imperfeitos e datados? Essa e muitas respostas só virão depois de muitos amanhãs, uma vez que vivemos uma espécie de hoje suspenso. Um hoje que vira semanas, semanas que viram meses, meses aglutinados neste estranho ano. Saberemos, enfim, se o “vai passar” da crônica vira um “passar vergonha”, “passar em branco” ou “passar a verdade”.

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