Crônicas de Botequim

A VIDA COMEÇA AOS QUATRO ANOS

A VIDA COMEÇA AOS QUATRO ANOS*

Discordo do senso comum: não é aos 40 anos que a vida começa. Também não é aos 50, 30 ou 20. A vida não começa quando nascemos, não começa ao completarmos um aninho ou quando ficamos, finalmente, de pé. Ela começa aos quatro anos. Antes dos quatro, há existência, crescimento, aprendizado. Desenvolvimento. Depois dos quatro, também. Aos 40, espera-se que tenhamos alcançado o ápice: razoável vigor e grande experiência. Tudo isso parece ser muito importante. Porém, é ali por perto dos quatro que a vida começa a mostrar o que nos espera de verdade. E diz: bem-vindo! Ou: aguenta!

Minha tese se baseia, primeiro, na experiência pessoal ao criar dois filhos. Depois, em algumas leituras e, por fim, num dar-se conta revelador: o “eu” só existe porque existe o “outro”. O outro me define, delimita minhas fronteiras, regra minhas atitudes. Sem o outro não sou homem, sou Deus. Aliás, aquela conversa de ser a imagem e semelhança cabe mais para nossas relações entre os pares do que para com o Criador. Na ânsia de corporificar o Divino, recorremos ao velho barbudo da Renascença ou ao Morgan Freeman da atualidade – homens.

Sem o outro não sou homem, sou Deus.

Continuando, por que a vida começa aos quatro anos, afinal? Porque até aquele momento, mais ou menos, uma rede de proteção coloca a criança a salvo de tudo e de todos. E a salvo de si mesma, principalmente. Ela cresce, a mente cresce, crescem os dentes (isso é importante no desfecho da crônica). Domina a linguagem falada e adquire ótimo controle motor. Neste instante, inebriada com tamanho poder, começa a bater de frente com o outro. Mais divertido: com o outro na creche, no play ou na pracinha. Encontra o outro com iguais quatro anos. Às vezes, cinco. Temíveis oito anos.

Tal situação faz com que os preciosos filhos ou filhas cheguem um dia, de surpresa, com um “relógio” no braço. Ou nas costas. Encontrou outro eu egoísta e, por mais que as profes controlassem, em dado momento os dois egos gigantescos discordaram sobre a propriedade de um mero boneco plástico. Foi quando a vida mostrou as garras. E os dentes. Tristes os pais que se revoltam com as machucaduras dos filhos aos quatro anos: podem atrapalhar seu começo de vida. Certo, também não precisa achar bom. Mas, acontecendo, faça uma cara de confiança e alerte: “Meu bem, força, é a vida!”. Depois, longe dos olhos infantis, chore um pouco. A cria estará descobrindo que a vida, antes de ser boa ou má, é apenas a vida. E aquela mordida foi só o começo.

*Publicada originalmente no Metro Jornal em julho de 2015

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