Crônicas de Botequim

Racismo em conta-gotas

Racismo em conta-gotas

Rubem Penz

Ela foi breve e precisa. Cabal:

– Diante de nós, alguém racista não olha para mim, olha para ti.

Touché!

Até hoje, quem antes olhou para ela foi capaz de entender tudo já na primeira visada. Teve exposto diante de si aquilo que é simultaneamente inexplicável e lógico, inesperado e previsível, impossível e materializado. O amor. Sentimento que não se pauta por minúcias. Ao contrário, penetra no âmago e de lá extrai a beleza de um casal. Sua verdade, seus votos. Depois, se olhou para mim também, foi só para cumprir os efeitos de confirmação – e minha felicidade é avalista implacável.

Por ser assim, sem pensar, ando sempre apartado dos conflitos, numa segurança totalmente incapaz de intuir a cotidiana dor do preto.

O racista é sempre preconceituoso. Portanto, dela já supõe tudo e, por seu tudo, entenda-se por tudo errado. E seus conceitos prévios não aceitam, autorizam ou suportam a presença dela em meus braços. É um erro. Erro para quem? Para ele e, por extensão, para mim. Claro! Então, olha-me. O racista quer compreender o que, afinal, pretendo eu com ela. Sou uma charada, um desafio ao status quo, um excêntrico. Depois, se olhar para ela também – e achá-la bonita –, na lógica espúria de um insepulto Senhor de Engenho, há de encontrar uma confirmação que reconheça atenuantes.

Touché!

A vida inteira me faltou tudo para, entre outras, pescar tamanha sutileza – escrevo agora depois de provocado, depois de ter cumprido um esforço de consciência e de memória em busca de lembrar quem olhou para quem e como nos olhou. E o que disse, e como disse, e por que disse. Mas fica pior, bem pior. Se não senti, jamais fui um par alerta o suficiente para compreender e barrar. Contrapor.

Por ser assim, sem pensar, ando sempre apartado dos conflitos, numa segurança totalmente incapaz de intuir a cotidiana dor do preto. Como sabê-lo quando o racismo se esconde sob o manto da sociabilidade? O que aconteceu com o George Floyd, gente, até um néscio compreende. E quem nega os fatos é desonesto demais. Mas nosso mar – ah – nosso brasileiro mar se faz em conta-gotas.

Touché! Sim, fui tocado. Perdoa-me a desatenção.

Comentários
Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar