Crônicas de Botequim

Uma luz no fim do filme

Uma luz no fim do filme

Rubem Penz

O que fazer quando estamos diante da tela e o filme está confuso? Pior: quando a proposta da história soou interessante, a sinopse se mostrou promissora e ele foi indicado pela sabedoria suprema do algoritmo para você? Somando mais um tempero, você não está sozinho – há alguém ao lado que permanece sem piar nem mugir. Isso aumenta a tensão e a dúvida: estará o filme confuso, ou serei eu alguém limitado?

Passamos por isso no final de semana. Com meia hora de enredo caótico, deu-me vontade de desistir e, com uma hora, a vontade já era quase insuportável. Ainda assim, o duplo silêncio diante do desenrolar da trama pedia paciência – em algum momento o diretor vai amarrar as pontas e o resultado será surpreendente, brilhante, mágico. Todas as metáforas farão sentido, as personagens comprovarão sua importância, os deslocamentos de tempo e espaço estarão justificados. Virá a luminosa redenção.

Pois é, vi (vimos) até o fim. Ambos desconfiados de estarmos boiando.

Diante da última cena, que deu pinta de ser o final mesmo, a perplexidade foi tamanha que a única certeza foi ter desperdiçado duas horas de vida. Ah, mas filme ruim não se limita ao desperdício puro e simples de sua metragem: perdemos mais uns dez ou quinze minutos na busca frenética de uma explicação para a história, de um sentido para tudo, de um enredo plausível. Em vão. Ainda assim, sobrevivia a incômoda sensação de incompetência, de burrice. Nenhum dos dois alcançou a profundidade necessária para cruzar a caverna e vislumbrar o mundo que deveria estar do outro lado da escuridão.

Até que, antes de irmos dormir, um bate-bapo de grupo de WhatsApp foi redentor: quatro ou cinco lares caíram na mesma pegadinha do serviço de streaming, com idêntica inquietação. Enfim, ou o filme é uma porcaria, ou um grupo considerável de pessoas por mim consideradas inteligente havia perdido o senso ao mesmo tempo. Ficamos com a opção um. E, para que você, leitor, não perca o seu tempo, chama-se…

Pensando melhor, não! Melhor não revelar o nome. Primeiro, para escapar da recomendação ao contrário (ah, duvido que eu não vá compreender), capaz de dar audiência. Depois, só para ver se alguém me diz, no privado, que parou de ver no meio esta obra, e eu poder parabenizar. Ou, quem sabe, revelar-me a luz.

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