Crônicas de Botequim

Ciclos, refluxos e outras transformações para ficar tudo igual

Ciclos, refluxos e outras transformações para ficar tudo igual

Rubem Penz

De vinte em vinte anos / Aparece no mundo uma nova geração

Mas de quarenta em quarenta / É que todas as coisas se repetem

Zé Rodrix

No passado meio distante, caso você tenha entre 40 e 55 anos de idade, foi diagnosticado como uma geração a ser totalmente alienada da realidade por causa da TV. Em tese, o número de horas diante de uma programação de baixa qualidade, fútil e idiotizante, quando não propositalmente danosa ao desenvolvimento de uma postura crítica, forjaria um cidadão incapaz de decidir por sua consciência. Pior: fadada a comprar qualquer coisa pelo poder de indução da propaganda de massa. Ao contrário, porém, nas mãos desta turma, os avanços na ciência e na tecnologia alcançaram patamares dignos de ficção científica. E a humanidade melhorou? Hummmm.

Digamos, para fins de raciocínio, que você seja mais novo: tenha entre 25 e 40 anos. O vaticínio é muito diferente? Não, apenas trocou de tela – estaremos diante de uma geração a ser totalmente alienada por causa dos videogames. Em tese, o número de horas diante de um universo digital paralelo, em nada compatível com os desafios do mundo real, acarretaria um cidadão incapaz de conviver com as questões do dia a dia. Estariam especializados em repetições de movimento para trocar de fase de um jogo e, defrontados com um texto, seriam incapazes de encontrar nexo. Para a surpresa de todos, entretanto, o que notamos é um pessoal que acaba de transformar a tecnologia e a ciência em velocidade e originalidade exponenciais. E a humanidade melhorou? Hummmm.

E agora, com a chegada das redes sociais e da comunicação instantânea? É o momento de lançar a previsão de que esta geração de adolescentes passando horas nos aplicativos está perdida, pois eles são especialmente criados para serem sedutores e capazes de disparar doses de dopamina ligadas ao modo interativo de mandar e receber feedbacks positivos e negativos. Além disso, a facilidade de carregar o universo no bolso suprime a necessidade de interagir e aprender e, assim, estaremos confrontados com o fim do afeto, do saber e da criatividade. E, claro, mortalmente manipulados por algoritmos.

Você, quinquagenário, considera-se um alienado? Você, trigenário, pensa ser alguém incapaz de lidar com o mundo real? E o adolescente de hoje, será o boneco de fantoche como apregoam? Perguntas diferentes com a mesma resposta, creio. Agora, no meio disso tudo, a humanidade pode vir a melhorar? Hummmm.

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