Crônicas de Botequim

Os olhos dos outros

Os olhos dos outros

Rubem Penz

Pimenta nos olhos dos outros é colírio

Adágio popular

Soube que Emily em Paris, cuja primeira temporada assisti em tradicional maratona netflixiana, desagradou alguns franceses. Muitos, aliás. E não é difícil entender as razões. O núcleo de personagens composto pela chefe da protagonista e seus colegas recorre sem medo de ser infeliz a clichês sobre a maneira francesa de trabalhar, relacionar-se e, claro, viver. Também a senhoria do prédio onde Emily mora faz questão de desrespeitar a regra de ouro dos negócios, ou seja, dar razão ao cliente. A impressão é que jamais se considerará nada dito em outro idioma, apenas na fluete e melodiosa língua local. Bom, no fundo, isso é uma bobagem – Paris recebe milhares de turistas por dia.

Na minha opinião, o seriado existe para apresentar uma espécie de gata borralheira da Era Digital. Ela ainda precisa de uma bruxa para ser antagonista, de castelos e príncipes, até de alguns personagens caricatos para as trocas. Talvez a maior diferença seja Emily apresentar-se, sozinha, como a própria madrinha em forma de fada – veste-se como para bailes, sorri como se tivesse nascido para encantar, flana tirando selfies pela cidade. Seu trabalho, diga-se, não é de rainha, mas também não é de escrava… E, como mocinhas não podem ter muitas nuances, resta para dar cor ao figurino os dramas paralelos.

Dito isso, o que mais me agrada – ou seria, tranquiliza? – é constatar a incomodação francesa. Ela nos autoriza a desgostar da maneira plana e pouco cuidadosa que a indústria audio-visual retrata os brasileiros. É bastante raro alguém denotar nossa pluralidade. Para diretores e roteiristas, em geral, somos aquele pessoal de pele bronzeada que exala sexo, desonestidade e burocracia. Ah, também temos violência, impunidade, clima ameno e água de côco. Assim fica até fácil descobrir por que a rota de fuga dos bandidos tem o Brasil como destino em nove de dez dos seus planos.

Senti-me como a vítima assistindo, ao menos uma vez, poderosos expostos ao ridículo. Um prazer proibido, sabe? Daqueles de nos envergonharmos. E, mesmo que as geniais tiradas mercadológicas da protagosista sejam ainda mais inverossímeis do que todos os roteiros passarem pela Torre Eifel, resta uma alegria maldosa para ser a cereja do bolo: constatar que o propagado american way of life é perfeito para se ganhar dinheiro, mas, no fundo, esconde um pessoal meio umbiguento e, ainda assim, duro de cintura. Pronto, falei.

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4 Comentários

  1. viu? Combinamos sem combinar. Meu texto do Mosaicode hj e a tua falação largada dos poderosos prepotentes e soberbos que se acham mais que a cereja do bolo! 👏👏🥂🥂

  2. viu? Combinamos sem combinar. Meu texto do Mosaicode hj e a tua falação largada dos poderosos prepotentes e soberbos que se acham mais que a cereja do bolo! 👏👏🥂🥂

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