Crônicas de Botequim

Tampa rosa em garrafa verde

Tampa rosa em garrafa verde

Rubem Penz

Onde moro, a água que sai das torneiras tem qualidade espetacular e, por isso, não precisamos comprar água mineral. Para tê-la gelada, porém, é interessante reciclar as embalagens que eventualmente adquirimos na rua – das mais variadas marcas. Assim, ainda que quase todas sejam em plástico transparente, cada garrafa traz suas cores nos detalhes. Ontem, uma foi fora. O problema? Por alguma razão misteriosa, estava com a tampa cor-de-rosa enquanto os outros detalhes eram verdes. Não deveria, mas isso me incomoda.

Vocês a me acompanhar sabem que, também, jamais misturo as cores dos prendedores de roupa. Se a toalha tem um prendedor azul, o outro será azul e, de preferência, os demais daquela corda igualmente. Na soma das implicâncias, o incauto poderia supor que tenho probleminhas. Acho que não é para tanto. Minha tese é que todos temos detalhes diferentes para deixar passar e para corrigir. E não cobro de ninguém ser igual – sequer saio trocando prendedores se não fui eu a estender a roupa. A garrafa foi fora porque temos outras e, claro, não há necessidade de eu ficar sofrendo.

Eis a parte ruim da coisa: sofro. Não terrivelmente, tipo aquele impacto paralisante e severo. E, se a coisa é íntima, fiquemos com a paz enquanto ela não perturbar ninguém. Considero legítima uma quota de estranheza em todo ser humano, algumas delas, inclusive, muito úteis em determinadas profissões. O aproveitamento de alguns desvios da média é tão útil para guiar destinos, quanto o de nossas qualidades. Ou mais! Que o diga os maratonistas de pernas longas e finas, os pequeninos jóqueis, os grandes lutadores de sumô e os espadaúdos nadadores. Ser diferente é bom!

Assim deveria ser com nossas amizades. Elas serão tão mais fortes quanto menos algorítimicas. Estaremos unidos por aquilo que nos aproxima e, o que nos separa, jamais terá força suficiente para romper o laço. Ninguém combina 100%, isso seria a pior das distopias. Isso é ditadura, é escravidão, é morte em vida. Se há algo presente em minhas preces, é a restauração da tolerância, da transigência, da síntese em sobreposição às teses. Óbvio: há limites. Um deles é o sofrimento – quando há pontos incontornáveis e capazes de gerar dor, o afastamento se impõe. Como no adeus que dei para a garrafa verde com a tampa rosa.

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