Crônicas de Botequim

Ufa, um calendário!

Ufa, um calendário!

RubemPenz

Você já deve conhecer a animação que correu por diversos aplicativos de mensagem na qual uma mesa de escritório vê sumirem todos os seus objetos para dentro da tela do computador. Ascensão e glória dos aplicativos. Ela é antiga. Tão antiga, inclusive, a ponto de o próprio computador já ter sido engolido pelo smartphone, né? E um dos objetos que sumiu lá da parede (ou do tipo de mesa) é o calendário. Para minha decepção – adoro calendários impressos.

Sobre eles, o primeiro a vir na mente é, na verdade, uma série: os calendários da Pirelli. São Cristóvão nos abençoe – como eram (são?) lindos tais calendários! Genuínas peças de arte a transformar borracharias e oficinas em galerias, representações luxuosas da maior e mais misteriosa obra do Criador: a mulher. Opostos na comparação com os demais exemplares contidos na categoria das “peladas”: neles, se há nudez, é sem vulgaridade. Pelo contrário, tratada com requinte, com estética, com glamour. Com reverência.

Mas não é de fetiches que quero falar. O tema é bem mais prosaico: como é bom ter ao alcance dos olhos num breve desviar de ângulo aquela clara e tradicional tabela de dias da semana, preferencialmente com os meses anterior e posterior ao lado, menores. Isso é de uma praticidade imensa! Sem falar na vantagem de marcar com a caneta eventos presentes e futuros, corriqueiros como a instalação do tubo de gás novo, sabe? Só para acompanhar se o consumo segue constante… Ano passado a Vanessa não ganhou calendários e eu estive órfão. Este ano, minha gratidão vai para Johann Alimentos.

Evito parecer um dinossauro. Porém, em meu sonho os jovens também se apaixonam por artes gráficas e o papel continua a ser pintado por cores e formas instigantes. Que tenham vontade de ver e de pegar com as mãos a peça, riscar sobre ela – quando for um objeto utilitário – ou guardá-la, se contiver afetos. Sonho manter vivos os calendários impressos por considerá-los a corporificação do talento humano. Algo semelhante à flor que, mesmo em vida sazonal e breve, deve existir para além de bytes sob o risco de a planta não deixar descendentes. Para as questões ambientais, há muito papel inútil para ser economizado.

A volta de um calendário de papel na mesa também é um ato de resistência. Minha vida só é plena com formas e texturas e pesos. Mesmo quando representam algo tão etéreo quanto o tempo.

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