Crônicas de Botequim

Momento sintomático

Momento sintomático

RubemPenz

Todos nós conhecemos os sintomas – febre, dores no corpo, tosse, dor de garganta, dificuldade respiratória, perda de olfato e de paladar. Aliás, perda de olfato e de paladar transcende o conceito de sintoma para ser quase uma metáfora. Porém, numa troca de mensagens carinhosas entre os cronistas do mais recente livro Santa Sede, surgiu um novo indicativo deste mal que nos aflige: falta-nos palavras.

Hoje, com a visita da morte em todos os nossos círculos – família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos –, alcançamos a exaustão das palavras de conforto e solidariedade. Muito grave é que o silêncio, mesmo o reverente e obsequioso silêncio, também não acalma mais os corações. Era mais fácil quando silenciávamos com um abraço, umedescendo ombros com lágrimas compartilhadas. Silenciar de longe soa como frieza, como descaso, indiferença.

Palavras, palavras, palavras. Já fiz graça, já mostrei espanto, tristeza, pena, ironia, horror.

Também parece faltar palavras persuasivas. O que mais pode ser dito ao esgotarmos o manancial de argumentos em favor da prevenção, dos cuidados? Para quem dirigir orientações, se uns nunca escutaram e outros não podem mais ouvir falar? Quando discutir, quando brigar? E onde? E com quem? Se ainda temos palavras, pode faltar vontade de falar – poupar nossas energias para sobreviver num possível normal, num normal aceitável. Suportável.

Deixei de fazer a contagem depois de ter cruzado a segunda dezena de crônicas sobre o tema, e isso faz um tempinho. Palavras, palavras, palavras. Já fiz graça, já mostrei espanto, tristeza, pena, ironia, horror. Já maldisse uns e bendisse outros; festejei e lamentei; denunciei e emiti esperança. Ao mesmo tempo em que tudo isso não sai da cabeça, estou com o sintoma arranhando forte na garganta, paralizando os dedos que precisam correr no teclado. Sinto ter mais nada para contribuir.

Ainda que pareça contraditório este exaurimento ter gerado um texto, dá para se dizer que aqui as letras se combinaram sozinhas, contra a minha vontade. Minha vontade. Minha vontade? No momento, ela é uma só: virar a página.

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