Crônicas de Botequim

Profissão mentira

Profissão mentira

RubemPenz

Por qual razão tanto nos seduz livros, filmes e séries sobre espionagem? Essa questão é relevante no momento em que, mesmo sem fazer grandes mergulhos de profundidade, qualquer pessoa pode ver serem elas tramas com protagonistas de virtudes óbvias, mas moral questionável. Atenção: ao dizer questionável sou até condescendente… Diga-me um espião sem crises de consciência e aparecerá um personagem mal construído. A diferença é que eles suportam viver no mundo tóxico da mentira e da dissimulação. Acreditam que os fins – seus particulares fins – justificam os meios.

A introdução serve para eu chegar na série a qual terminamos de maratonar aqui em casa: Homeland (Globoplay), produção norte-americana baseada em um original israelense. Em oito eletrizantes temporadas, Carrie Mathison (Claire Danes), analista da CIA detida em uma operação não autorizada no Iraque, retorna depois de ser avisada por uma fonte de que um prisioneiro de guerra foi convertido pela Al-Qaeda. Ao mesmo tempo, Nicholas Brody (Damian Lewis), um sargento dos Fuzileiros Navais, é libertado depois de oito anos de cativeiro. A desconfiança de Carrie sobre Brody dá largada à trama que põe em lados opostos uma espiã desacreditada e um ascendente herói de guerra.

Pontuais flashbacks (principalmente do período de cativeiro do sargento) completam, peça por peça, a imagem do quebra-cabeças. Num roteiro bem urdido, repleto de reviravoltas, os antagonistas enredam-se em laços perigosos um com o outro, pintando a paisagem com cores quentes e traços sempre fora dos contornos. Aliás, “pensar fora da caixa” é a grande virtude de Carrie, segundo Saul Berenson (Mandy Patinkin), seu mentor, figurão tarimbado e de origem judaica, forjado na escola da antiga espionagem internacional. Pensando bem, nada mais pertinente do que um judeu – ainda que pouco religioso – estar no centro do tabuleiro que tem por paisagem o Oriente Médio.

Um dos aspectos mais instigantes do seriado é a bipolaridade da protagonista, representada de modo notável (ah, os trocadilhos) por sua preferência pelo jazz modal. Ele está na trilha sonora e nas paredes da casa de Carrie, onde há quadros de Miles Davis. Quem conhece o estilo sabe o quanto é hermética sua apreciação – não seria exagero dizer que mais incomoda do que agrada o senso comum. Ser bipolar, e esconder isso da agência, impõe à Carrie uma mentira original, tornando-a uma anti-heroína. Também disso extrai sua maior força, na euforia, e sua mais grave fragilidade – nos surtos psicóticos.

Homeland agradará especialmente aos que gostam de tramas de espionagem. Porém, indico com mais força aos reféns do maniqueísmo de nossos tempos, agravado pelas fake news (elas estão ali, também). Será interessantíssimo perceber que nem os atos mais deploráveis, tais como o terrorismo, respondem à lógica do preto e do branco – tudo no mundo habita as nuances do cinza. E não são só os espiões – esses mentirosos profissionais – os responsáveis por ocultar a verdade.

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