Crônicas de Botequim

Posicionamento

Posicionamento

RubemPenz

Quem numa partida de futebol presta atenção no goleiro? Respondo: todos os que, realmente, gostam do esporte. Eis o jogador que nunca pode errar e, por isso, ocupa um espécie de cargo de confiança da comissão técnica. Repare bem: goleiro só é substituído por lesão (raras exceções confirmam a regra). Também goza de prestígio dentro do grupo, por vezes chegando a estabelecer condutas de orientação.

Vi muitos e ótimos guarda-metas no meu time – o Internacional – e na Seleção Brasileira. Atletas capazes de deseatabilizar os atacantes só pela autoridade moral. E o maior deles foi Cláudio Taffarel. Porém, estranhamente, mesmo contando com uma performance fantástica e números incontestáveis, havia uma legião de pessoas a desconfiar do seu talento. Esses costumavam dizer que o Taffarel só defendia bolas fáceis. Ingênuos. O diferencial do rapaz era justamente o posicionamento, ou seja, anular as opções dos atacantes para atingirem a meta.

Posicionamento correto também pode ser útil fora da pequena área, para além do futebol. Uma pessoa com pensamentos equilibrados, palavras claras e atitudes coerentes costuma sair de embates de ideias, digamos, ileso. Tem para si a vantagem de quase garantir um honroso zero a zero, quando ninguém demove o outro de suas posições nem sai mal na foto. No mais das vezes, considero ser os bem posicionados vencedores (ao menos pelo olhar de terceiros quando o debate é público). Restará ao oponente admitir, ou não, a derrota.

Pensei isso tudo ao assistir “Narciso em férias”, documentário em que Caetano Veloso responde diversas perguntas sobre os 54 dias de prisão – dele e de Gilberto Gil – a partir de dezembro de 1968. Recomendo a todos, gostem ou não do baiano, concordem ou não com ele. Cuidando para não dar spoiler, adianto o que considerei o ponto alto: a leitura de seu depoimento à época, escurtínio das motivações para a detenção. Fragilizado pelo arbítrio, o jovem de 26 anos soube se posicionar tão, mas tão bem diante do inquiridor, que anulou sem muito esforço os ataques sofridos. Como nas atuações de Taffarel, fez parecer fácil algo extremamente difícil.

Vai que é sua, Caetano!

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