Rubem Penz

Há dois tipos de votos: os domésticos e os selvagens. Se pensarmos em termos de classificação biológica, ambos são da mesma ordem, família e gênero, porém de espécies diferentes. Uns são dóceis e treináveis; outros, temperamentais e ferozes. De uns, as carnes são tenras; dos outros, rijas. Ambos mordem ou lambem a mão do candidato – adivinha qual, de preferência, faz o quê? Em cada eleição, especialmente em segundo turno, os políticos dependem dos dois.

Os votos domésticos vivem com o candidato. Ora habitam sua casa, ora ficam só no pátio e, excepcionalmente, em comitês – um lugar onde são criados com votos de outros correligionários. Eles se alimentam, basicamente, de pensamentos, uma ração racional. Há marcas mais caras, em cujas fórmulas estão as reflexões balanceadas, fibra, currículos de terceiro grau (no mínimo), alinhamentos lógicos e coerentes. Existem, também, as marcas- diabo, feitas de cargos, favores e pequenos poderes. Quando os votos domésticos não comem ração, vivem as custas dos restos do banquete partidário – algo meio nojento, mas, é do jogo…

Os votos selvagens estão por todo canto e lugar – desde os rincões mais distantes até as calçadas das avenidas centrais das metrópoles. Vão daqui para lá como o vento, porque são livres. Eles se alimentam, basicamente, de impulsos (há exceções as quais, por consciência, têm fino trato e separam o trigo, desprezando o joio). Entenda-se por impulso tudo o que se possa imaginar: oportunidade ou coerência, simpatia ou antipatia, desejo ou asco, protesto ou conservadorismo, anarquia ou ordem, humor ou lágrima, ignorância ou inteligência superior. Se bobear, também avançam sobre os restos do banquete partidário.

Votos domésticos o político os têm, no partido ou em coligações. Votos selvagens precisam ser capturados. Nesta imposição vale tudo: desde as arapucas tradicionais (promessas vãs) até as armadilhas sofisticadas (planos de governo). É imprescindível atrair o voto selvagem para perto de si e, tanto quanto se consiga, domesticar suas reações – prendê-lo, enfim. O problema é que eles são ladinos. Escapam por frestas inimagináveis, as quais tentam ser adivinhadas com o uso de pesquisas de intenção (isso me soa como piada). De hoje até a data da eleição, a temporada é de caça. E todo cuidado é pouco para não perder, por falta de carinho e atenção, algum voto doméstico – vai que uma reação instintiva recorde-o do comportamento impulsivo? Também é do jogo.

Texto publicado na coluna “Crônicas de botequim” no Metro Jornal Porto Alegre.

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