CrônicasMetro - Porto Alegre

A marquesa saiu às cinco horas III

Coluna do Metro Jornal em 14.01.14

A MARQUESA SAIU ÀS CINCO HORAS III

Rubem Penz

O cronista Maicon Tenfen resgatou por esses dias um antigo texto de Paulo Mendes Campos, o qual versava sobre a indisposição de Paul Valéry em escrever frases como “A marquesa saiu às cinco horas”. Ambos reescrevem a oração em diferentes estilos, e nos divertem. Aproveitando a onda, faço o mesmo, ao estilo dos colegas cronistas aqui da aldeia.

“A marquesa, lábios carnudos, coxas torneadas, tatuagem tribal no tornozelo e louros cabelos ondulados pousando suavemente nos ombros, saiu às cinco horas. Sem calcinha.” (David Coimbra)

“Consta nos livros que a marquesa saiu às cinco horas pela porta da frente. Mentira. Na realidade ela saiu pela janela, mas isso ninguém tem coragem de dizer. Só eu. Acostumo-me a falar sozinho.” (Juremir Machado da Silva)

“O sol prometia deitar-se suavemente sobre o Guaíba, colorindo aquele fim de tarde primaveril na Praça da Matriz, quando, pouco antes da Ave Maria, às cinco horas, a marquesa saiu. E trocamos olhares de eternidade.” (Liberato Vieira da Cunha)

“A marquesa podia sair às sete, sete e meia, até às oito horas da noite. Mas não: saiu às cinco. A marquesa, assim como todos nós, tem medo. Esse é o legado de nossa política de segurança: uma cidade sitiada, em prisão domiciliar.” (Diego Casagrande)

“Pablo saiu às cinco horas. Essa é a história que interessa, nenhuma outra. Se a marquesa saiu também, outro dia, depois, certamente esteve movida pelo ignóbil motor da inveja.” (Paulo Sant’Ana)

“Ah, a marquesa. Mais do que legado de fidalguia, fez por merecer esta alcunha: marquesa! Nobre, nobríssima marquesa para sempre. E, precisamente, inesquecivelmente, indubitavelmente às cinco horas, como houvera de ser, saiu.” (Ruy Carlos Ostermann)

“Às cinco horas, a marquesa saiu. Saiu da cama. Saiu de cena. Saiu de cima. Saiu do colo. Saiu do cume almejado pela paixão. Saiu porque mulheres sonham com os homens que as elevem às alturas, mas temem esses homens. Então saem.” (Fabrício Carpinejar)

“Nunca é fácil sair. Buscar dentro de si a dose certa de desprendimento, resultado da maturidade tranquila de quem viveu algumas perdas, sempre necessárias para darmos valor ao que é essencial. A marquesa saiu: às cinco horas.” (Martha Medeiros)

“Paulo Mendes Campos e Maicon Tenfen nos disseram com talento e criatividade que a marquesa saiu às cinco horas. Quem sou eu para duvidar?” (Rubem Penz)

A SEGUIR, OS DOIS TEXTOS PARA OS QUAIS DOU SEQUÊNCIA, NA ORDEM INVERSA DE PUBLICAÇÃO

A MARQUESA

Maicon Tenfen

Em algum momento dos anos 60, Paulo Mendes Campos escreveu uma crônica na qual apresentava inúmeras formas de dizer que “A marquesa saiu às cinco horas”. O que segue não é plágio (ou é, vá lá, embora seja um tanto delicado admiti-lo), mas apenas as suposições atualizadas de como certos autores escreveriam sobre o mesmo tema:

Estilo Paulo Coelho:

No dia 11 de novembro de 1997, a marquesa decidiu que havia — afinal! — chegado o momento de partir. Sim, ela precisava construir sua lenda pessoal. Chegou a essa conclusão porque entendeu que haviam (sic) mais coisas entre o céu e a terra do que julga o vão conhecimento dos homens. Mal sabia ela que todo o Universo conspiraria ao seu favor e que Paulo Coelho, um escritor que tivera oportunidade de conhecer numa conferência no café do hotel Grand Union, também fez isso em sua juventude, antes de conhecer a Luz.

Estilo Luis Fernando Verissimo:

— A marquesa.

— Mmmm…

— Como assim, mmmm?

— Mmmm, oras. A marquesa. Corpão, né?

— Corpão. Sabe que ela saiu?

— E devia?

— Devia. Às cinco. Em ponto.

— Mmmm.

Estilo José Saramago:

De facto, claro está que a marquesa, visto que a nós não nos esquecem os ponteiros do relógio que fazem as horas irem-se passando umas após as outras, já que todos somos pó e ao pó voltaremos a regredir, quando o menor desses mesmos ponteiros se posicionou rente ao cinco e o maior ao doze, ela, a marquesa, olhou para o interior dos seus aposentos e disse à serva, Ó Filomena, estou a sair, Mas agora, perguntou a outra, Sim, agora, e foi-se a marquesa, neste exacto ínterim em que os homens e as mulheres, tão apressados quanto apressada é a ganância de seus patrões, estão a se preparar para retornar, de cabeças baixas, a seus lares silenciosos.

Estilo Poeta Concretista:

A
AM
AMA
AMAR
AMARQ
(E assim por diante).

Estilo Arnaldo Jabor:

Antes do 11 de setembro, o Fukuyama vivia dizendo que a História acabou. Pois o Robert Kurz nem precisou ver as torres caindo para gritar lá da Europa que a História acabou p… nenhuma. Diante dessa armadilha do mundo pós-utópico, o que importa saber se a marquesa saiu às cinco ou às seis? Está na hora de deixarmos a classe média viver sua burrice em paz!

Estilo autoajuda:

Você é mais importante do que pensa. E possui um talento extraordinário apenas esperando a chance de se manifestar. Pois saiba que essa chance está a dois passos de você, basta que termine de ler este livro, compre todos os outros da nossa coleção, se olhe no espelho, bata no peito, rosne e grite bem alto: “eu sou especial”. Assim fez a marquesa do nosso exemplo anterior. Depois ela saiu às cinco horas para conquistar o mundo.

Estilo Maicon Tenfen:

Em algum momento dos anos 60, Paulo Mendes Campos escreveu uma crônica na qual apresentava inúmeras formas de dizer que “A marquesa saiu às cinco horas”. O que segue não é plágio etc., etc…

Revista Eletrônica RUBEM em 01.10.2013

 

A MARQUESA SAIU ÀS CINCO HORAS

Paulo Mendes Campos
“Paul Valéry, com seu horror à vulgaridade literária, dizia-se incapaz de escrever um romance por não possuir a coragem de redigir uma frase como esta: A marquesa saiu às cinco horas.

Pois se dá que neste momento, em crise de frivolidade, fico pensando nas inúmeras maneiras de descrever um episódio tão banal. Tais como:

 

*********
* A marquesa talvez tenha saído às oito horas, talvez um pouco antes, talvez um pouco depois, talvez nem tenha saído. Eu pelo menos nem a vi (Tipo mineiro, à la José Maria de Alkmin)

* Ninguém poderia jurar que a marquesa saiu às cinco horas (Tipo agnóstico)

* Se a marquesa saiu às cinco horas, às cinco horas, logicamente, a marquesa não devia estar em casa. (T. policial carioca)

* Teria realmente a marquesa saído às cinco horas? (Cético)Leia mais…

* A marquesa, ô lá lá, saiu às às cinco horas (T. Pichador)

* A marquequequesa sasaiu às cicinco horas (Nervoso)

* Madame la Marquise est sortie à cinq heures (T. francófilo)

* A maphyeza saiu cay ac cihko gopac (Criptografico primário)

* Se a marquesa saiu às cinco horas devia estar ligada a movimentos subversivos (DOPS)

* A MARQUESA SAIU ÀS CINCO HORAS! (Manchete de vespertino)

* A Marquesa deu a saída às cinco horas (Repórter esportivo)

* Por que a marquesa saiu às cinco horas? (Marquês)

* A marquesa saiu at five o’ clock (Colunista social)

* A marquesa saiu às cinco en punto de la tarde (Associativo)

* A marquesa saiu, sem a mudança, às cinco horas. (Dono de transporte de móveis)

* A marquesa saiu às cinco horas, mas eu não fui. (Mitômano)

* A marquesa por cima saiu por baixo às cinco horas por cima (Débil mental)

*A-pa marpaquepesapa sapaiupiu aspas cinpincopo hoporaspas (Pueril)

* A marquesa saiu às cinco horas. Uma pouca vergonha. (Ressentido)

* A Msa. saiu às 5 (Sintético)

* Venho pela presente declarar, a quem interessar possa, que a marquesa saiu às cinco horas (Comercial)

* A marquesa saiu às cinco horas na tarde azul rumando ao Sul no barco em flor do meu amor (Bossa nova)

* A marquesa saiu às cincos horas gozando o favor do preceito constitucional que lhe assegura o direito de ir e vir (Bacharelesco)

* A marquesa tá um pavor, minha filha, saiu às cinco horas (Uma Amiga da Marquesa)

* A marquesa saiu às cinco horas como um raio de sol belo e terrível (Augusto Frederico Schmidt)

* ……………………………………………………. (Henry Miller)

* A marquesa saiu às cinco horas lançando pianos na tarde (Murilo Mendes)

* A marquesa saiu às cinco horas, mas posso garantir que aqui na casa do velho Braga ela não esteve. (Rubem Braga)

* Quando soube que a marquesa tinha saído às cinco horas, a macróbia de Boca do Mato me telefonou para dizer: “Essa bruaca já estava sobre a borocochô no baile da Ilha Fiscal” (Stanislaw Ponte Preta)

* A Marquesa! Saiu! Às cinco horas! Ba-ta-ta! (Nelson Rodrigues)

* Eu jamais escreveria: A marquesa saiu às cinco da tarde (Paul Valéry)

* A marquesinha, que gracinha, saiu às cinco horas (Vinicinho de Moraesinho)

* Salve a marquesa/ real turquesa do Brasil/ do Brasil do céu de anil /que saiu às cinco horas /de reco-reco e tamborim/ ai de miiiiiiim ( Escola de Samba)

****

CAMPOS. Paulo Mendes. O colunista do morro. Rio, Editora do Autor. 1965

 

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