Rubem Penz

Pequena tragédia em quatro atos. Primeiro: a mulata da vinheta de divulgação da cobertura do Carnaval na TV, desde 1993 sambando apenas de sandálias e com o corpo pintado, surge bastante coberta de roupas coloridas. Segundo ato: o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, desenho de 1490, é utilizado para ilustração de capa de um caderno jornalístico com algo que parece ser uma folha a cobrir a área pubiana. Terceiro ato: pessoas que publicam nas redes sociais desenhos, pinturas ou fotos consagradas têm sua postagem censurada porque elas revelam genitais, há seios ou nádegas expostas. Último ato: mulheres vistas com censura ao amamentar em público.

Para todos os que defendem teses moralistas e consideram a exploração do corpo como algo discriminatório, vil e opressor, o enredo é alvissareiro avanço. Porém, para quem compreende a nudez como sendo natural, ou para quem a crê pertinente, bela e libertária, um perigoso retrocesso. Entre o nudismo e a burca há muito pano para tangas. E minha única certeza neste sensível tema é a de que ainda há muito o que ser resolvido em termos de sexualidade. Quem não admite a nudez em estado de arte, nega, antes, a natureza.

Estive pela primeira vez na Europa, berço de Hans Donner, nos mesmos anos 1990 em que fulgurou o esplendor de Valéria Valenssa. Lá, fui surpreendido por homens e mulheres comuns despindo-se das roupas sem constrangimento para aproveitar o raro sol de inverno em parques ou praias. Também visitei o museu de Auguste Rodin e Camille Claudel onde, encantado, vi corpos paralisados em mármore dos quais se pode adivinhar movimentos. E, na Capela Sistina, um deslumbrante Michelangelo (1475-1564) retratando o corpo do homem como o apogeu da criação Divina, para o desespero do clérigo da época. Recordo disso para afirmar que a arte explora o corpo por reverência, a sensualidade é o motor da vida e às pessoas é possível estar nuas sem que isso signifique a franquia ao sexo.

Perdoem-me os muito pudicos (eu mesmo reservo pessoais doses de vergonha), mas quem vê apenas lassidão no corpo nu, tal qual os conselheiros da Igreja que mandaram cobrir os genitais pintados por Michelangelo, ou quem considera ofensivo uma mulher amamentar em público, precisa pensar um pouco. A quem o pênis do Homem Vitruviano perturba, ou as curvas de uma mulher sambando embaraça, igualmente. É trágico trilhar para o lado do pudor a ponto de chegar, inevitavelmente, à tara. Quem sabe respeito e reverência ao corpo em estado de natureza e em estado de arte possam compor um enredo de final mais feliz?

Crônica publicada no Metro Jornal em 31.01.17

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