Metro Porto Alegre em 10.07.2013

A POLÍTICA DE CONTER INCÊNDIOS 2

Não foi um nem foram dois leitores a me escrever observando a coincidência mórbida entre a crônica da semana passada (na qual um grande incêndio assola uma cidade fictícia, enquanto o comandante dos Bombeiros ocupa o corpo do Presidente e vice versa) e o fato de o Mercado Público de Porto Alegre pegar fogo logo a seguir. Eu mesmo fiquei duplamente abalado: primeiro, pelo enorme carinho que tenho por nosso belo, histórico e popular centro de compras; depois, por causa da aparente clarividência. Ainda por cima, estava lá perto enquanto tudo acontecia – poucas quadras acima. Deixei o local levando comigo o cheiro da fumaça e um aperto no peito.

Assim, corro para fazer o desmentido: antes de baterem em minha porta para conhecer o futuro, aviso logo que será absoluta perda de tempo. Quem vê adiante poderia usar essa faculdade para ao menos uma vez (uma vezinha só) acertar n’alguma loteria. E, para não dizer que nada ganhei durante a vida, certa vez em 1972, num show de mágica no Cine Teatro Presidente, fui agraciado com um jogo de botão. Daqueles tipo panelinha, de Flamengo e Fluminense. Quer dizer, quando ganhei algo em sorteio, o Gerson e o Nelinho ainda fardavam… No mais das vezes, perco até par ou ímpar.

Ah, mas sorte e poder de vidência não são as mesmas coisas! – dirão. Concordo: para quem compreende isso como sendo um dom, não são mesmo. Por ética, ou princípios morais, enriquecer adivinhando o futuro parece algo muito condenável. Então, fiquemos com exemplos mais prosaicos. Aconteceu muitas vezes de alguém, antes de sair de casa, perguntar-me: achas que vai esfriar? Toda vez que respondi que sim, esquentou. Quando disse não, fez um frio de doer. Quem havia indagado reclamava com razão. Por isso, depois de algum tempo, passei a responder toda pergunta que iniciava em “achas que…” com um simples “não acho nada”.

Esclarecido que nunca serei capaz de adivinhar (ou antecipar, vaticinar, prever) o amanhã, resta apenas desejar. E desejo que esses dois incêndios que já marcam o Rio Grande do Sul com cicatrizes profundas em 2013 (boate Kiss e Mercado Público) sirvam de alerta. Sirvam para aprimorar as ações de prevenção. Sirvam para recolocar o poder público no comando das ações coletivas, assumindo a delegada responsabilidade por elas. Sirvam para que os investimentos no Corpo de Bombeiros sejam (e)levados a sério. Sirvam para conscientizar a população de que o que pode acontecer, um dia, por fortuna ou azar, acontece. E, nesse dia, é bom estarmos preparados.

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