Coluna do Metro Porto Alegre em 03.07.13

A POLÍTICA DE CONTER INCÊNDIOS

Contam que certa feita, num estranho e longínquo país, houve um acontecimento mágico: o Comandante do Corpo de Bombeiros, ao acordar, era o Presidente (ao seu lado, a Primeira Dama ainda dormia). Por sua vez, o Presidente despertou no corpo do Comandante dos Bombeiros com um telefonema urgente: um grande incêndio na cidade. Quais são as ordens? – desejavam saber. Calma – ele respondeu – não façam nada: se o fogo apagar sozinho, nem me chamusco (pura lógica política).

Mas o fogo não cessou e, chegando ao quartel, a corporação aguardava por novas ordens. Ele, ágil, chamou o assessor de imprensa e mandou que divulgasse ser o incêndio um boato nascido de interesses escusos. Pouco adiantou: imagens de chamas já estavam na TV. Finalmente convencido de que havia um incêndio real, pediu uma coletiva de imprensa. Nela, anunciou um plano abrangente com diretrizes para prevenir futuros incêndios. E deu no noticiário: “Comandante do Corpo de Bombeiros promete: incêndios, nunca mais!”.

Agora, as labaredas já alcançavam vinte metros. Nessa altura, percebeu que precisava de medidas mais prementes dos que as adotadas até então. Solicitou com urgência um estudo completo das condições materiais e humanas para o combate efetivo de grandes sinistros nos últimos trinta anos – para o seu bem, eventuais insucessos deveriam ser imputados às administrações anteriores. Formou um comitê de gestão e blindou as comunicações: nada deveria vazar sem que passasse por ele em pessoa.

Porém, a tragédia já ameaçava os prédios vizinhos, chamando a atenção das agências internacionais de notícias. Tensão, alvoroço, pânico. E o Comandante berrava pelos corredores: por que justo agora? Por que logo comigo? Começava a crer em teorias conspiratórias, dizia-se vítima de fogo amigo. Teve uma ideia: chamar uma reunião com lideranças locais, especialistas e formadores de opinião para formular uma agenda de consenso.

Depois de duas horas de debates, no calor das acusações e cobranças mútuas, tocou o telefone. Era o Presidente em pessoa (aquele esquecido desde o começo da história). Sem mais delongas ele ordenou: desloquem todo o efetivo dos batalhões próximos, sete caminhões e chamem a Defesa Civil para ajudar com as vítimas. Agora!

Apagaram o fogo. Antes de o Comandante do Corpo de Bombeiros conseguir capitalizar para si o sucesso da operação, a magia se desfez. E, sobre o que acontecera no palácio durante o tempo em que o bombeiro esteve presidente, nada se soube. Abafaram rapidinho.

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