Rubem Penz

Rua dos Andradas, 1.234 diz alguma coisa para você? Não?!

Pois este é o endereço de um dos principais e míticos arranha-céus de Porto Alegre, o Edifício Santa Cruz. Obra do arquiteto Carlos Alberto de Holanda Mendonça, construído na transição das décadas de 1950 e 60, alcança 107 metros de altura e foi o primeiro erguido com estrutura metálica no Rio Grande do Sul. São 34 pavimentos, dois andares de subsolo, centenas de salas comerciais e dezenas de apartamentos. No térreo, lojas, portaria, duas escadas rolantes e oito elevadores. Aproximadamente 12 mil almas circulam por ali diariamente, quantia que supera em habitantes muitos municípios. Mas não são os números que me importam, são as pessoas.

Decidido a seduzir cada leitor dessa coluna a preservar sua paixão pelo Centro Histórico, e consciente de que isso acontecerá quanto mais o lugar fizer parte da nossa vida, deixei as palavras e parti para a ação. Planejei um jantar acima de toda a cidade, com a vista mais bela: o cair da tarde sobre o Guaíba. E foi demais! Durante algumas horas, o amor que sinto por Porto Alegre cresceu na ordem direta da altura do Santa Cruz; a crença na humanidade, também. Fiz novos amigos, trocamos muitos sorrisos e criamos uma teia de cumplicidade digna de romance. Foi um dos dias mais felizes da vida e – sim! – tudo aconteceu agora, no Centro, reticente alvo de queixas, lamentos e preconceito. Programa para cinco sentidos. Acima de tudo, amor.

Este é o ponto: pertencimento. Quando faço um balanço de minha vida, o roteiro central de Porto Alegre é cenário obrigatório – shows que fiz no Espaço IAB e na Casa de Cultura, eventos no Centro Cultural Erico Verissimo e Santander Cultural, espetáculos inesquecíveis do suntuoso Theatro São Pedro ao alternativo Teatro de Arena… Quanto mais pessoas forem capazes de contar suas histórias e, mais importante, colocarem o local em seu presente e futuro, maior será a chance de voltarmos a ter um entorno seguro, bonito, confortável. Será o reforço necessário para cobrarmos dos prefeitos e de vereadores ações concretas e necessárias.

Gente muito bacana mora e trabalha no Centro, pessoas incríveis se esforçam em acolher bem a todos que por ali circulam. Sejamos inspirados pelas políticas de revitalização que transformaram bairros pelo mundo afora e isso virá em benefício da coletividade. Há uma chance de ouro para tal. Mas fica para falarmos semana que vem.

Crônica publicada no Metro Jornal em 21.11.2017

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