Rubem Penz

Cena um, cotidiana: minha sobrinha paulista (paulistana), numa recente estada em Porto Alegre, reparou espantadíssima na quantidade de carros brancos num estacionamento do shopping. Ué, mas não tem carro branco em São Paulo também? – coube a pergunta. Claro que tem. Em São Paulo, os carros brancos são táxis. Logo, estão na rua, trabalhando, jamais estacionados.

Corta para memória afetiva: dois dos automóveis mais lindos que já “tive” foram brancos. Um, aquele que justifica as aspas, era do pai – um Alfa Romeo 2.300 com vidros escuros (verde Ray-Ban, como dizíamos). Tinha rodas de liga leve, bancos de couro, ar condicionado e vidros elétricos (em 1980 isso era para poucos). O outro, batizado Pascoal, um Fusca 1977 que reformei cuidadosamente, o primeiro carro adquirido com meu dinheiro. Branquíssimo. Até em homenagem, pensava em comprar ano que vem um carro branco para substituir meus tantos anos de vermelho. Agora, já não sei…

Corta para nosso momento: até hoje, ninguém viu a proposta de tornar os táxis de Porto Alegre brancos pelo viés da desvalorização dos pares da mesma cor. Sim: ser confundido com táxi é tão ruim para o motorista de carro particular quanto para o taxista. E vai despencar o valor de nossa alva frota. Quem vai comprar carro branco? Eu, não. Em poucos anos, essa realidade será a mesma de São Paulo. Ah, você tem carro branco? Ligue para o prefeito. Ainda está em tempo.

Corta para a inteligência: depois do advento da plotagem/adesivagem, transforma-se um carro preto em vermelho-táxi num dia. O branco, também. Amarelo, prata, vermelho, cinza, ocre, tudo vira táxi instantaneamente. Depois, é só remover. Justifica o investimento. O que o poder público precisa fazer é contemplar essa alternativa, junto com um alerta indelével de que o veículo foi táxi para os futuros compradores saberem, por ética, de seu passado profissional.

Corta para a tradição: já são poucas as coisas para nos orgulharmos em termos de administração municipal, e uma delas é a assinatura visual de nossos táxis. Ela faz com que os visitantes levem consigo um traço característico, auxilia a visualização do serviço concedido, enfeita a rua. Foi reproduzida nos táxi-lotação, é construção de marca, é patrimônio imensurável. Fica aqui meu alerta vermelho: não deixe que dê um branco nas mentes que decidem essas coisas. É certo que minha crônica-recado chegará ao prefeito. Um e-mail seu, também: participe!

Crônica publicada no Metro Jornal em 10.04.2018

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