Rufar dos Tambores

Bil ibagens

Número 437

Rubem Penz

Geada vestiu de noiva

Os galhos da pitangueira

Coronel & Vasconcelos

Adoro rádio. Escuto sempre que posso. E de tudo: notícias, música, entrevistas, esporte etc. Pulo para cá e para lá nas estações, seja no carro, seja em casa ou numa caminhada. Antes, quando era redator publicitário full time, para me ver feliz, bastava pousar em minha mesa o pedido de criação de um spot (comercial de rádio). Melhorava se podia acompanhar e dirigir a produção. Minha ligação com a música eleva o som para um patamar superior. Aceitando que existem imagens que valem mais do que mil palavras, considero que sons podem, por sua vez, valer mais do que mil imagens.

Esta é a função dos redatores, locutores, sonoplastas, compositores e músicos: inventar um mundo que dispense a visão, aparentemente nosso principal sentido, substituindo formas e cores pela imaginação. Bem narrar um jogo de futebol, por exemplo, é uma arte: equilibrar informações com emoção, levando o ausente para dentro do estádio. O repórter de campo cumpre a função de reprise por outro ângulo, e o comentarista completa a paisagem. Outro detalhe que jamais pode faltar nesse caso é a ambiência: torcida (Ohhhhh!), apito do árbitro, ruídos do contato dos pés com a bola, bronca do treinador. Isso só existe no rádio: na TV, há um excesso de informações visuais que enfraquecem a narrativa. Ou, por vezes, acabam por traí-la. Pode ficar bem chato.

Outro caso emblemático é o do correspondente de guerra. A escolha das palavras, as pausas, a gravidade ou a urgência transformam nosso estado de espírito. Muito mais do que na TV, o enunciado de notícias de rádio vindas do front é refém do talento do jornalista, de sua habilidade e carisma. Aqui vale a lembrança de Orson Welles, que levou os norte-americanos ao pânico transmitindo, com acento jornalístico, uma adaptação de A guerra dos mundos, obra de Herbert George Wells. Os ouvintes creditaram que nosso planeta estava sendo invadido por extraterrestres sem que um único mosquito mais suspeito fosse visto. Os ouvidos são um dos melhores atalhos para a fé.

Em se tratando de Rio Grande do Sul, especificamente agosto gaúcho, tão mais útil do que botar o nariz para fora da janela pela manhã, é escutar a previsão do tempo. Não que o inverno dispense os sons naturais: vento cortante, chuva impiedosa, granizo saltitante, silente geada. Às seis horas da manhã, perto de zero grau, nem cachorro se aventura a latir. Precisa setembro avançar – bem vindo! – para os sabiás anunciarem o relaxamento climático. Assim como já me disseram que paulistas odeiam o enunciado Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul associado ao termo frente fria, nos arrepiamos só de ouvir falar em Argentina e Uruguai. E os meteorologistas adoram citar o Prata.

Se o papo de rádio, sonoplastia e inverno parece não fazer muito sentido, explico a razão de ser dessa crônica. Uma das rádios pelas quais zapeio nas manhãs apresenta o boletim do tempo dito por uma experiente profissional cujo sobrenome é Valente. Algo que, por si, já é piada pronta ou, no caso, nome que condiciona o destino (como tanto gostava o saudoso Moacyr Scliar). Todavia, não basta. O que realmente impressiona é que ela parece estar constantemente gripada!

Escutar que dificilbente a demperadura alcançará os guinze graus, e uba bassa de ar bolar avança da Argendina vale mais do que mil imagens. Sem dúvida, contamina o texto de verdade! Outro dia, até uma tossida fez parte do noticiário. Valentes, também somos nós, que deixamos as cobertas para encarar o Vento Minuano!

 


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2 Comentários

  1. Poderias juntar tua paixao de escrever com o desafio de narrar teu proprio livro. Adoro escutar audio-books. O apelo de escutar Bill Clinton, Stephen Covey, Carl Sagan, soh para citar uns poucos, narrarem os proprios livros eh irresistivel para mim. Um livro “publicado” desta forma, apesar de nada ter a ver com o radio (nao desde as radio-novelas, pelo menos), requer todas as tecnicas que mencionastes na cronica.

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