Coluna de hoje no Metro Jornal em 26.11.13

Educação, gentileza e empatia são assim: saem de casa e ganham as ruas. Coisas muito simples podem alterar toda uma cadeia de relações. Por exemplo, utilizar os termos “com licença” e “obrigado”. Toda vez que eu escuto essas palavras, meu dia melhora. Concentro-me em jamais esquecê-las – vejo no semblante do outro o mesmo efeito.

O interessante é que pedido de licença e gratidão são também atitudes, e acontecem com o mesmo efeito benéfico. O equivalente ao “com licença” no trânsito é a seta (pisca-pisca ou sinal). Quando vamos trocar de pista, mesmo tendo espaço e tempo sobrando, sinalizar é uma espécie de pedido de licença. Educado, sutil. Avisar o outro que dobraremos a esquina logo adiante, ou entraremos em uma vaga de garagem, custa muito pouco e tranquiliza o fluxo. Fora isso, sorrir pedindo uma vaga para entrar numa preferencial engarrafada é de uma simpatia extrema.

Aliás, no caso específico de pedir uma vaga para alguém, entra o valor extremo da gratidão. Todos esperamos o gesto, a palavra, a pequena mesura ao ofertarmos um furo na extensa fila de automóveis do final da tarde. Talvez estejamos oferecendo a chance para uma mãe buscar o filho na escola no horário (aplacando uma pequena angústia); ajudando um homem a chegar ao aeroporto no tempo certo; adiantando alguns preciosos minutos o encontro de dois namorados. Tudo isso passa pela nossa cabeça quando o outro agradece efusivamente.

Há alguns códigos que substituem com razoável competência o enunciado de gratidão, quando esse não é possível na premência do fluxo. Duas buzinadinhas rápidas, dois flashes de pisca-alerta ou um discreto “positivo” com a mão para fora do carro resolvem tudo. Perfeito mesmo é quando damos a seta, recebemos a chance e conseguimos agradecer, tudo em questão de dez segundos. Ali seguem dois motoristas em paz consigo e com a cidade.

O contrário disso é carga negativa de quem conduz o carro como se não houvesse mais ninguém por perto, trocando de pista, parando ou convertendo sem sinalizar. Ou, ao receber o beneplácito de uma vaga, seguir adiante como se a gentileza alheia fosse uma espécie de submissão. Arrogância sobre quatro rodas. Para cada mal-educado destes, nasce um pequeno arrependimento de ter feito o certo. Haja consciência para absorver o golpe e concluir que triste é a vida do outro – não soube merecer o bom gesto.

No final de semana, quando uma senhora cedeu a passagem para mim e meus filhos atravessarmos na sua frente num estacionamento de shopping, ao que agradeci e trocamos sorrisos numa cena perfeita, o carrão de trás calcou a mão na buzina. Olhei firme para o homem triste que não conhece o prazer da gentileza, da educação. Deu vontade de lhe dizer: com licença, vai para o inferno com essa buzina! Obrigado.

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