Rufar dos Tambores

De onde?

Número 423

Rubem Penz

Você liga para uma empresa e pede para falar com alguém. Do outro lado, a moça pergunta quem deseja falar. Você se identifica. Aí vem a pergunta fatal: – De onde? É quando a porca torce o rabo. Ao menos comigo.

Em tais casos, sempre tenho a impressão de que serei vítima de uma triagem. Uma barreira instituída por escalões superiores para permitir apenas a passagem de assuntos relevantes ou, pior, pessoas relevantes. Uma espécie de filtro de linha para segurar impurezas corporativas. Ação que pode até ser louvável, mas raramente é aplicada sem imprevistos, pois está sujeita às falhas da subjetividade. E subjetividade, nos últimos tempos, poderia ser meu apelido.

É quando tento escapar pela tangente: dou meu nome completo, como quem sugere com polidez ser o suficiente ao destinatário. Funciona algumas vezes e tudo é resolvido com civilidade. Em outras, não: – Sim, mas “da” onde? – insiste a moça (coloco esta variante, com aspas, para agradar os sociolinguistas). Noto que será preciso oferecer mais informações, ou nada feito, e aquilo que era um simples telefonema começa a se complicar…

Dizer que é um assunto pessoal, mesmo sendo a verdade, é um desastre. Ou ela insiste em saber mais, o que beira a invasão de privacidade, ou passa a ligação e simultaneamente passa a imaginar coisas. Em ambos os casos tenho a impressão de estar prejudicando a pessoa com quem desejo falar. Quando opto pelo lacônico “é um amigo”, também abro o flanco para as especulações, principalmente quando ligo para uma mulher – a mais libertina variação sexual é a presumida.

Mentir seria boa ideia? Houve um tempo em que foi moda identificar-se como o professor de balé (no politicamente correto, seria piada homofóbica). Mas isso pressupõe a intimidade dos parceiros de longa data. A maior chance para as mentiras, mesmo criativas, é a de não ser atendido – ponto para a triagem. Dizer que é do pronto-socorro (ou da Receita Federal ou da 5ª Delegacia de Polícia) pode até garantir atendimento, mas é brincadeira de mau gosto. Logo, mentir nem sempre é opção.

Excesso de sinceridade é outro problema. Usar o “de onde?” para detalhar elos, justificando-se, é patético e soa como quem vai pedir dinheiro emprestado: – Ele me conhece desde 1978, do colégio. Depois disso, namorei a irmã dele por dois anos e quase nos casamos, sabe? Ultimamente perdemos um pouco o contato, estive morando em Manaus, depois em Macapá, Porto Velho, Santa Cruz de La Sierra… Então, como estou de passagem pela cidade…

Enfim, nada melhor do que saber o telefone celular dos amigos. Porque só tem uma coisa pior do que cair nas garras inquisitórias de uma secretária: ligando para sua residência, ser atendido pela esposa. Ou (encrenca!) pelo marido:

Rubem??? Rubem de onde?


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3 Comentários

  1. Via crônica, confrontado por um tio sobre o problema de termos um sobrenome menos comum, ele próprio confundido com um pretenso Sr. “Bento”, lembrei de um bilhete deixado na mesa de trabalho de um amigo, conforme relato: “O Seu Penis ligou”. Ossos do ofício… Abraços, Rubem

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