Rubem Penz

Acho que agora vai! O impacto da degradação na segurança pública alcançou as esferas capazes de agir em busca da solução almejada por todos. Tive acesso exclusivo às gravações não autorizadas em uma reunião do crime organizado. Nela, estavam representantes dos traficantes, milicianos, assaltantes de rua, puxadores de automóveis, ladrões de banco, entre outros. Havia consenso: o avanço indiscriminado da criminalidade está tornando a atividade do mal um mau negócio. Deixemos que a conversa fale por si:

(Traficante RLT, mais conhecido por “P”) – Assim não dá! Da maneira como as drogas estão atravessando as fronteiras, estamos com excesso de oferta. Logo, o valor da grama da cocaína, o quilo da maconha e a pedra de crack estão inviabilizando a boca. Isso sem falar na concorrência. Mato uns cinco por semana e não adianta nada.

(Miliciano F…zão) – Concordo, e digo mais: da maneira como nossa atividade está sendo inundada de pessoas, cobrar proteção está muito difícil. Estamos perdendo a credibilidade desse jeito. O que esse pessoal está fazendo que não estuda ou trabalha? Assim complica!

(Assaltante G “da mamãe”) – Vocês se queixando? E nós? Sabe quanto um receptador está pagando por um celular? Por uma TV de tela plana? Um tablet? Uma mixaria! Se não vendemos pelo que ele pede, fala: “Smartphone igual a esse chegam uns 30 por dia. Te vira.” E o trabalho de roubar continua o mesmo…

(Puxador K) – Sei o que o colega fala. Com os automóveis está o mesmo problema. Os desmanches estão fazendo jogo duro; os clonadores, cheios de serviço, inflacionaram o mercado; os assaltantes de banco pagam pouco. Que diabo: a gente não consegue ir contra a maldita lei da oferta e da procura!

(Assaltante de banco B U, o “X”) – Opa, a culpa não é minha! Até queria pagar mais pelos carros. Mas, se não cortar custos, estou ferrado. Sabe quanto custa colocar alguém estudando a vida do gerente? Tem ideia do preço da dinamite? Os fuzis também subiram porque muita gente está comprando. Sem falar nas informações privilegiadas…

Neste momento, alguém se dá conta de que estão sendo gravados e a conversa muda de rumo. Todos começam a se queixar de Brasília, da corrupção, da Petrobras (perderam horrores em ações da petrolífera), etc. Concluíram que o governo deve investir em educação e segurança para que o PIB suba e as atividades ilícitas sejam punidas de verdade. “O mercado precisa selecionar os melhores para nosso setor retomar a lucratividade”, disse o… Bom, melhor não revelar quem disse isso. Ele nunca irá para a cadeia.

Crônica publicada no Metro Jornal em 13.01.15

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