Rubem Penz

Era uma vez um reino muito distante das (bem) ditas “Terras Lógicas”. Ocupava seu trono, por séculos, uma madrasta rainha com verdadeira ojeriza de quem duvidasse de suas virtudes. Segundo consta, fora escolhida por seus encantos e, em eterna continuidade, conduzia o povo com pompa e circunstância. Em dado momento, passou a correr o boato de que seu único conselheiro era um espelho, e havia quem enxergasse nisso uma espécie de metáfora. Diga-se: poder auto referenciado, só mesmo distante de Lógicas.

Todo dia ela consultava o espelho e, ato reflexo, ele respondia exatamente o que a rainha desejava ouvir. Nem mesmo em momentos de lúcida autocrítica, quando a monarca perguntava ao espelho sobre uma mácula qualquer, ele traía a moldura que o enquadrava: para estes casos, recorria a uma comparação favorável. “Nariz grande? E esse outro, então?” – mostrando a ela um retrato pior.

Porém, o tempo foi passando e a vida do espelho se tornava mais convexa, digo, complexa. A beleza da rainha, paulatinamente, tornava-se questionável. Até mesmo para ela. Temendo a desordem, o espelho chamou a corte diante de si. E abriu o jogo: por mais que embaçasse, em algum ponto poderia cair em contradição e revelar uma rainha já menos bela do que ela supunha ser. Isso colocaria o status quo em perigo e, construído tal consenso, a pergunta era – fazer o quê?

Usando de ora vejas, não obstantes e como notamos, depois de muita flanela e pouco brilho, o espelho mostrou sua verdadeira face: cobraria uma modesta propina para continuar dizendo tudo o que a rainha gostaria de ouvir. Para a corte, bastava aumentar os impostos e se livrar de inconvenientes princesas formosas. “Até quando?”, quis saber um duque do baixo clero. Tanto quanto for necessário, esse foi o combinado. Acontece que, de tempos em tempos, o espelho passou a pedir novas reuniões e aumentar o preço da ilusão.

Permaneça sentado quem espera uma espécie de moral da história – isso demanda choques de democracia. Assim, ainda hoje no reino muito distante das “Terras Lógicas”, temos princesas que jamais aparecem por preguiça e medo, uma corte que faz tudo para não comprometer seus privilégios, uma rainha convicta de ser praticamente uma miss e um povo sofrido sustentando o baile. Ah, e um velhaco espelho de cristal com moldura em sólida madeira de lei cada vez mais poderoso e rico. Enfim, o fim.

Crônica publicada no Metro Jornal em 08.12.15

 

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