Metro Jornal em 17.12.13

Meu pai não se conformava com o fato de seus filhos homens não terem servido às Forças Armadas. Faltou-lhe, talvez, a compreensão sobre os anseios, medos e revoltas da minha geração – nasci no emblemático ano de 1964. Porém, ele dizia que minha visão, mesmo de censura, seria mais qualificada se tivesse passado pela caserna.

Algo parecido acontece na hora de conviver com o síndico. Mais critica aquele que nunca assumiu essa responsabilidade. Quem experimentou até pode apontar falhas, mas em outro nível – quase como os conselhos dos que já tiveram filhos para com os pais novatos. E a administração, como o Serviço Militar obrigatório, é mandato de apenas um ano. Isto é, se doer, sara. E servirá de aprendizado.

Todos deveriam passar ao menos uma vez pela experiência de ser síndico, e não há momento melhor para isso do que quando jovem. Depois da aposentadoria é conveniente, desde que já seja uma segunda ou terceira vez. Em minha única experiência, estava com trinta e poucos. Fui vice e, depois, o titular. Sobrevivi.

Os prédios também sobrevivem às administrações equivocadas. Quando a assembleia elege alguém inexperiente, há no inconsciente a certeza de um ano difícil. A coragem dos moradores se irmana àquela convicção do sargento que logo vê o menino sem a menor vocação para calçar coturnos: o rapaz fará o melhor possível simplesmente porque não resta alternativa. Além do mais, no mínimo, fortalecerá o caráter (aqui, o ponto de vista do meu velho pai).

Passada a gestão, todo ex-síndico revisa seu olhar sobre aquele abnegado que assume essa prova de fogo. Compreende seus momentos de angústia, reconhece o esforço, valoriza o tempo doado, relativiza muitas atitudes. Também, claro, identifica falhas evitáveis. Quanto mais polido for, melhor conselheiro será. Se, além de cordial, for inteligente, saberá quando os conselhos devem ser economizados, pois inúteis. Em outras palavras, o comando temporário do prédio é a oportunidade de alguém se transformar em um vizinho qualificado.

Diz a voz popular que todo homem, antes de morrer, deveria escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Meu pai colocava neste rol o Serviço Militar. Já eu, acrescento um mandato de síndico. Em tudo, a oportunidade de evoluir, colher frutos, deixar um legado e conhecer as entranhas da vida. Posso até não ter sido convincente a ponto de você candidatar-se na próxima assembleia. Mas ao menos pensará no assunto.

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