Rufar dos Tambores

Futebol, essa obsessão

Número 429
Rubem Penz
Quando tinha quinze anos, ainda nas categorias de base, tropeçou em um fio e entrou no campo pulando duas vezes com o pé direito. Naquela tarde, marcou o mais belo gol de sua iniciante carreira – meia bicicleta, logo atrás da marca do pênalti, no ângulo. Dali para frente, jamais dispensou aqueles dois pulinhos que lhe deram tanta sorte.
Em outra oportunidade, nas finais do campeonato regional, ao dar seus dois pulinhos, desequilibrou-se e rolou em uma cambalhota. Quase morreu de angústia. Suava frio perfilado para a fotografia. Porém, marcou dois golos, o segundo aos quarenta e dois do segundo tempo, garantindo a vitória. Ah, que dúvida: adotou a cambalhota.
Era sua primeira partida na Seleção Sub-17. Deu seu dois pulinhos, a cambalhota e aplaudiu de volta as manifestações da torcida. Naquele jogo, não só fez dois golos, como também foi escolhido pela crônica especializada como o melhor em campo. Quem foi que disse que dormiu à noite? Já amanhecia quando teve convicção de quantas palmas batera na entrada em campo.
Sentado no banco de reservas, aguardava com esperança pela chance de compor entre os profissionais, quando uma mosca quase pousou em seu rosto. Enojado, sacudiu as mãos, a cabeça e, surpresa!, chamou a atenção do técnico. Passava dos trinta e cinco do segundo tempo. Deu dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas e substituiu o número dez. Mudou o jogo, revertendo um empate vexatório.
Estréia como titular no time. Todos os parentes na arquibancada. Pediu, ou melhor, implorou para ser o último da fila no momento de entrar em campo. Deu dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas e sacudiu com violência a cabeça e as mãos ao entrar em campo. A torcida, obviamente, estranhou. Ouviu-se um apupo. Olhando para as sociais, identificou o pai, a mãe e a avó. Saltou e acenou usando toda sua envergadura. Na primeira jogada, mal apitara o árbitro, já estava marcando um gol. O seu mais rápido gol!
Escutou pelo rádio: saíra a convocação para a seleção nacional e seu nome estava na lista! Um amistoso, longe da Copa do Mundo, contra um selecionado obscuro da Europa Oriental, mas era a oportunidade. Fazia muito frio. No primeiro treino, depois de entrar em campo com dois pulinhos, uma cambalhota, dezenove palmas, uma simbólica espantada de mosca e sete polichinelos, deu uma corridinha no mesmo lugar para reforçar o aquecimento. Então, testemunhou uma lesão grave no titular absoluto de sua posição. Imediatamente trocou de colete e viu asfaltada sua estréia como meia atacante da seleção. Adotou a corridinha.
Hoje, Ivanilson tem trinta e seis. Faz três anos que foi repatriado, depois de passar doze jogando nos maiores clubes do mundo. Já foi a quatro Copas. Vende saúde. É sempre determinante nas partidas. Também o único que dispensa aquecimento antes de entrar em campo. Fica ali, divertindo a torcida com novecentos e oitenta e quatro movimentos, integramente repetidos em ordem, algo que já consome quase vinte minutos.
Até abandonar a bola, crê que chegará aos mil amuletos.


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