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Giba Giba, sopapo, coração

Coluna do Metro Jornal em 04.02.14

Um estranho ato desta peça chamada destino retirou a vida do percussionista, compositor e cantor Giba Giba em um três de fevereiro – justo no dia em que meu irmão-primo Eduardo (Dudu) Penz faz aniversário. Ambos são indissociáveis em minha memória afetiva. Afinal, eu era pouco mais do que um adolescente quando o Dudu, então jovem contrabaixista, passou a acompanhar o já veterano Giba em shows. Como andávamos sempre juntos, eu próprio um projeto de músico, conheci de perto um pedacinho da vida e da obra de um dos pilares da cultura luso-africana no Rio Grande do Sul.

Nascido em Pelotas, Gilberto Amaro do Nascimento (Giba Giba) fez parte de uma geração seminal em termos de entrelaçamento entre urbanidade e tradição, entre raiz e futuro. Sua importância pode ser medida no som do sopapo, tambor grave e artesanal cuja trajetória foi colhida diretamente da comunidade africana que povoou nosso Estado. Para mim, e para muitos, pensar em sopapo é pensar em Giba Giba, que dedicou a vida inteira para o resgate e a preservação das divisões rítmicas nascidas do encontro entre a mão negra e o couro do tambor. Era como se o coração da humanidade inteira encontrasse ali um primitivo eco. Ainda me falta lucidez para descobrir se o Mestre Giba respondia a algum chamado, ou mandava para nossos antepassados um recado deste louco tempo.

Aliás, sempre me impressionou a postura de vida deste compositor, perpassada por sua obra. Figurino tradicional, altivez, energia positiva. Era um homem de sorriso largo e contagiante. Num só tempo grave (da voz ao instrumento) e doce. Gostava das mensagens de paz e harmonia. Sonhava com a utopia das comunidades em ressonância com o tempo e com as ofertas da natureza. Como em sua canção Lugarejo (parceria com Wanderlei Falkenberg), queria morar num lugar onde “tudo é troca, o verde, a banana e a água do rio”.  Quase um hino, esta música, agora, dói um pouco em minha memória.

O que me consola é o legado deste homem. Não só plantou boas sementes musicais em todos os que estiveram mais ou menos perto durante a passagem, como deixou um legado de vida dedicada ao estudo e perpetuação da cultura nacional com fontes em outros continentes – principalmente da África. Parte um menino velho, que vi saltando de alegria quando acompanhado de crianças e, num show recente, sorrindo vaidoso por ter muitas mulheres cantando seus versos. Morre num três de fevereiro, dia que sempre fez parte de meu calendário afetivo. Este dia será cada vez mais musical para mim. Música que embala as parcerias que tecem nossa trajetória. Música que canta a saudade. Escute daí o sopapo, Mestre Giba Giba. É o som de nosso coração.

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