Rufar dos Tambores

Gol a gol

Número 415

Rubem Penz

Ao pátio ladrilhado da minha casa de infância faltava envergadura para ser uma cancha, mas foi o primeiro campo poli-esportivo que conheci. No sentido cozinha/anexo, aproveitando a corda do varal, jogávamos newcomb e vôlei de duplas: meninos versus meninas (meu primo Dudu e eu contra minhas irmãs); no sentido muro/tanque, o famoso futebol gol a gol, versão mais reduzida possível do gênero criado pelos ingleses – basta um arremedo de campo, duas metas e um adversário. Tinha sempre o mesmo oponente (o primo), pois havia muita distância de idade com meu irmão, e gurias, na época, não jogavam bola. Vantagem: todo dia era dia de clássico, aguerridos Grenais.

Para qualquer professor de educação física, aquele era o mundo ideal: crianças na idade pré escolar e de ensino fundamental com atividades físicas em casa, trabalhando igualmente o trem superior e inferior, praticando jogos competitivos, individuais e de equipe. Propositalmente, deixo em segundo plano as bicicletas, bobinho, caçador, pega-pega, corda, elástico, peteca, tamborete, esconde-esconde, cinco marias entre outras brincadeiras formadoras do bom manancial psicomotor. O foco de minha lembrança é o bom e velho gol a gol.

Nascido da precariedade (jogadores em número insuficiente e espaço reduzido), o gol a gol, por ser mínimo, exigia o máximo de fundamentos. Praticava-se precisão no arremate, defesas, domínio de bola (para defender com os pés), drible (podíamos conduzir a bola caso houvéssemos defendido com os pés), desarme e imposição física (meu calvário). Quando a bola cruzava o muro, nosso caso particular, ainda apresentava vantagens extras: desenvolvimento de força, equilíbrio e velocidade. Isto é, subir no muro, andar sobre ele, descer do outro lado e fugir do cachorro da Dona Vilma.

Como jogávamos praticamente todos os dias, não posso culpar o destino por não ter me tornado um Manga, Falcão ou Zico. É óbvio que não nasci para a coisa. Mas este jogo rudimentar proporcionou o contato com duas das maiores alegrias do futebol: marcar golos e defender chutes fortes e precisos. E, por mais que um bom arremate seja motivo de orgulho, devo dizer que poucas experiências se assemelham a uma ponte bem executada, chegando naquela bola que mirava o ângulo e acomodando-a nos braços sem dar rebote. Se jogadores de linha são bailarinos, goleiros são acrobatas!

Esta semana, uma marca esportiva estupenda foi notícia no mundo inteiro: Rogério Ceni, “guarda-metas” brasileiro do São Paulo Futebol Clube, alcançou o patamar de 100 golos marcados. Ok, ainda faltariam mais de 900 para bater o Rei Pelé, Atleta do Século XX e ícone mundial. Porém, o detalhe é que Ceni, um acrobata, costuma estar afastado estimados 100 metros das redes adversárias, objetivo maior do esporte bretão. Enfim, tamanha é a raridade de seu feito, que o goleiro mais próximo é o aposentado Chilavert, com respeitáveis 62 tentos no currículo.

Posso me considerar um privilegiado, pois testemunhei jogar esses dois grandes recordistas do futebol, Pelé e Ceni. Homens que viram seus esforços reconhecidos em cada gomo do planeta bola. Iguais a mim, devem ter ocupado bom tempo da infância em pátios transformados em campos imaginários. Diferentes de mim, ambos nasceram, e muito bem, para a coisa. Hoje, uma necessidade se impõe: se o Jorge Benjor nominou o Fio Maravilha o “Homem Gol”, nada mais justo do que compor um tema para o Rogério Ceni, imortalizando melodicamente o “Homem Gol a Gol”.


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