Rubem Penz

Lembrei de Drummond, lembrei de José. São tantos os Zés. Quase um genérico. “Ô, Zé: vem cá!”, gritamos para aquele que lá se encontra e não sabemos seu nome. Pode ser Augusto, pode ser Bartolomeu. Demétrio, Estevão, Francisco. Hoje – por que não? – quiçá Gabriela, Helena, Isabel. Mas o ano de 2016 pode ser, ele, um José? Pego carona nos versos do poeta para investigar:

E agora, 2016? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora 2016? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, 2016? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou, e agora 2016?

O canto drummondiano para um 2016 “José” ficou bem ao gosto do freguês: desencantado, deprimido, derrotado. Você, leitor, deve estar pensando que este é meu pensamento, meu horizonte, aquilo que espero para o período difícil que se avizinha. Poucas são as palavras capazes de mobilizar, dadas as evidentes evidências. Tirar ânimo, de onde? Perspectiva, qual? Alegria, paz, entendimento, com que cara? Com que cura? Com quem? Por quê? E cheguei, enfim, ao ponto que desejava: a interrogação.

O que fiz para alimentar este ano “José” com alguma dose de esperança foi colocá-lo com exclamação. Uma exclamação regular, suficiente. Uma exclamação espada erguida contra tudo o que há para lamentar, a favor de todos os que merecem nossa força. Um buscar não sei de onde – do âmago? – aquilo que nos alimentará. Refiz, assim, os versos:

E agora, 2016! A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora 2016! E agora, você! Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta! E agora, 2016! Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou, e agora 2016!

Carlos perdoará minha interferência? (Carlos perdoará minha interferência!) Os puristas perdoarão minha conspurcação? (Os puristas perdoarão minha conspurcação!) Os arautos do caos mudarão de ideia? (Os arautos do caos mudarão de ideia!) Resumo desta forma meu desejo de ano novo: entre a interrogação e a exclamação, ficarei com o segundo ponto. Será loucura ou juízo? (Será loucura ou juízo!)

Coluna publicada no Metro Jornal

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