Rufar dos Tambores

Invisível

Número 469

Rubem Penz

Veja bem: atenção para a lareira, aqui é onde ligamos a hidromassagem, o acabamento em bronze antigo do corrimão da escada dispensa polimento, mosaicos de cerâmica marcam a divisão de ambientes, luzes indiretas criam um clima intimista… Sim, corretores de imóveis são especialistas em pinçar aquilo que nos enche os olhos (enquanto esvazia nosso bolso). No fundo, sabem que felicidade doméstica passa longe da sofisticação. Porém, uma agrega valor e a outra, não.

Quem faz a alegria do banheiro, por exemplo? Não é a pia em mármore, a argola dourada para as toalhas de rosto ou o vaso sanitário trapezoidal. Para mim, felicidade é luz direta e ventilação farta. Nada substitui um banheiro bem arejado, escolha dos profissionais de arquitetura ainda em fase de projeto. Banhos de luz e as lufadas de frescor valerão mais do que o piso em porcelanato tão glorificado pelo vendedor. Ali, na rotina das manhãs, na saída do chuveiro, ao lavar o rosto, uma lição cotidiana da diferença entre o que é caro e o que não tem preço (claro, podendo, sempre é melhor termos os dois).

Lembrei-me disso no desabafo de um amigo bem achegado quando trilhou o caminho da área de serviço para me encontrar. Por ele estar vivendo a contingência de mudar-se para uma casa em fase final de obra (conheço o filme), ele olhou para o nosso tanque como o náufrago para as areias da praia. Lustre, freezer, forno, balcão ou cristaleira? Nada… A vida se decide no basal, na essência. Quase gritou: meu reino por um tanque! Ali, naquele operacional e malfadado recanto do lar, estava sua Pasárgada.

Amigo, disse-me, vocês não fazem ideia da falta que faz um tanque. Um lugar para limpar mãos e braços sujos até o cotovelo, para depositar o que jamais caberá numa pia, para lidar com a dimensão do caos. O tanque é o centromédio do lar: pouco aparece e ninguém admite depender dele. Mas, sem um volante voluntarioso (sem um tanque), tudo fica mais difícil. Tanto que os tanques foram se chegando do arrabalde para perto e, por fim, para dentro de casa. No minúsculo apartamento, ele está lá: na cabeça da área, pronto para o serviço pesado.

Longe de mim fazer a apologia do pobre, mas limpinho; do simples, mas honesto; do improvisado, mas funcional. Só quero lembrar que tudo na vida tem (ou deveria ter) prioridades, e estas não precisam passar necessariamente pelo poder aquisitivo. A quase pronta casa do meu amigo e sua querida esposa é linda, luminosa, aconchegante. Tem uma vista belíssima e inexpugnável, ambientes bem bolados e todo o conforto que se possa pensar. Mesmo assim, o lar não pode ser considerado plenamente habitável sem um prosaico tanque na área de serviço.

Dá até uma vontade de mudar de atitude: ao receber visitas, levá-los pela casa a mostrar o quadro de luz, o tanque, a dispensa, a caixa d’água, o aquecedor de passagem. Tudo antes da espaçosa sala de estar que, como diria o corretor, é composta dois amplos ambientes a formar um “L” com a sala de jantar.

O luxo é aparente, mas frio como ouro. O conforto é invisível, mas quente como o abraço.

 


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