Rubem Penz

Brasil e Alemanha fazem uma semifinal de Copa muito especial, hoje. De um lado, minha pátria amada e mãe gentil, solo que me viu nascer e crescer. Meu país! De outro, a nação de onde vieram muitos dos meus antepassados, quase todos. Vou torcer pela esquadra vestida de verde-amarelo, branco e azul anil, claro. Se fracassarmos, nem por isso deixarei de ter um lado no embate contra quem vencer o jogo entre Argentina e Holanda. Como quem marcava triplo nas cartelas da Loteria Esportiva, já estou na final da Copa do Mundo de Futebol. Sinto assim.

Estranhamente, essa múltipla torcida contempla duas formas de ser bem distintas, ambas temperando os modos dos teuto-descendentes brasileiros. Dependendo do tronco da árvore genealógica, encontro-me da segunda à quinta geração de brasileiros, salvo engano. E compreendo que sou, geneticamente, “alemão” no sentido amplo – carrego a aparência dos povos que há milênios habitam as terras do norte. É evidente nos olhos, na pele, no cabelo… Só me faltou ser alto, ainda que nem todo alemão o seja. Mas não é apenas isso que traz simpatia pela seleção de camisas brancas e calções escuros: apraz sua eficiência. Gosto de acreditar em uma herança de educação firme e valores sólidos. Direcionada para o bem, é claro – temos as lições do Século 20.

Porém, não consigo me desvincular da brasilidade. Se no recesso do lar fui criado aos moldes europeus; ainda que o sol americano me castigue; apesar de ter nascido nesta terra estranha chamada Rio Grande do Sul, sou brasileiro com muito orgulho e muito amor. Está na cara? Não: está na cura. Está na musicalidade, na naturalidade, na graciosidade. Está no modo de lidar com as soluções e com os problemas; com a vida e com a morte; com as gentes e com as coisas. Tanto quanto um quadril branco permite, e às vezes é menos do que se gostaria, tenho malemolência. Brasileiro é o povo do jogo de cintura real e figurado. Terra acolhedora que faz estranhos tornarem-se iguais.

Na final da Copa, estarei torcendo pela superação, pelo improviso e pelo gingado. Ou vou desejar que ganhe a organização, a eficiência e o foco. Estarei em sintonia com o tom da pele, ou com tudo o que nela não se mostra. Estarei fiel ao solo, ou ao sangue. É diferente de ser leal a dois reis, de acender uma vela para cada Santo – somente garanto uma parte de mim com chances de erguer a taça. Meu coração abriga com folga essa dupla nacionalidade. Ainda mais se for contra os argentinos…

Coluna publicada no Metro Jornal em 08.07.2014

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